
Todos têm acompanhado a novela interminável de um problema que começou antes do que se imagina. Essa reportagem, publicada na Revista do Globo nº 878, de agosto de 1964, de autoria de Eduardo Pinto, nos dá a exata dimensão e marca cronologicamente o momento em que o nosso cais deixava de ser uma solução e passava a representar uma questão a ser enfrentada. Depois de 55 anos, mais de meio século, continuamos com dificuldade para atribuir ao porto, que batiza nossa cidade, uma função que justifique a escolha do nome.
Diz o repórter: “Por 8.014 metros de cais acostável estende-se o porto da capital gaúcha, que, tal como o nome da cidade, já foi um “porto alegre”, mas hoje perdeu muito da sua alegria. Até há pouco, um dos mais movimentados do país, o porto de Porto Alegre, nos últimos dois, anos entrou em violento processo de decréscimo que muito vem preocupando. Geograficamente, o porto está localizado a 698 milhas (1,1 mil quilômetro) do porto de Santos e está assim dividido: Cais Mauá, com 3.003 metros; Navegantes, com 3.621 metros; e Marcílio Dias, com 1.390 metros. Conta com uma área total de armazenagem de 54.420 m², composta de 21 armazéns, dois pátios cobertos e 12 alpendres. Com toda essa área, até há pouco – cerca de dois anos – várias foram as vezes em que o problema principal constituiu-se na falta de espaço para armazenamento de mercadorias. Hoje o problema é outro, bem diferente: falta de cargas”.
Depois de discorrer sobre a formosura do panorama, o jornalista avalia que, com a construção das avenidas Dique 1 e 2, “que acompanharão o porto em toda a sua extensão... essa beleza ficará ainda mais ressaltada”. Após uma análise dos custos de operação, entre outras coisas com os 584 estivadores, conferentes e demais funcionários que ali trabalham, o autor da matéria conclui, baseado em dados reais, que “o Estado não terá condições financeiras para continuar administrando os portos gaúchos.” Segundo ele, “os portos, juntamente com as ferrovias, são apontados como responsáveis por alta parcela do déficit orçamentário nacional”.
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A federalização, ou a criação de empresas de economia mista, são as alternativas cogitadas. “O Departamento de Portos, Rios e Canais (Deprec) tempos atrás, em face do grande número de solicitações, cedia os armazéns somente quando o navio ancorava. Hoje os armazéns são oferecidos até com um mês de antecedência e não existem interessados. Tal é a disponibilidade, que estes armazéns têm sido utilizados para apuração de eleições e prélios esportivos, como no pleito municipal de 1962 e na Universíade, 1963.”
Sem solução imediata à vista, o autor do texto espera das autoridades o exame da situação, enquanto isso: “a floresta metálica dos guindastes (60% parados) do porto triste de Porto Alegre estarão apontando seus longos e negros braços para o azul do céu, como numa prece silenciosa. Prece para que o destino dos dias que virão lhes devolva a atividade dos dias que passaram”.