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Dois projetos desenvolvidos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) vão contribuir para disponibilizar mais unidades de um equipamento vital no tratamento de pacientes com coronavírus: os respiradores. A ideia surgiu na conversa entre professores do Departamento de Linguagens e Sistemas de Computação do Centro de Tecnologia da instituição com dois médicos amigos, que relataram a deficiência no número de equipamentos caso a situação se agrave.
Foi então que veio a ideia de projetar um adaptador que faça com que um respirador manual (no qual um profissional precisa ficar pressionando uma espécie de balão chamado "ambu", que gera o ar) funcione de forma automatizada. A partir disso, em uma semana, a equipe desenvolveu o projeto que dará uma força a mais no combate a covid-19
— Comecei a discutir com esses amigos médicos, e eles desabafaram, que estavam enfrentando o coronavírus como se enfrentou a gripe espanhola, apenas com quarentena. Tivemos um século para resolver isso e não resolvemos, não se agregou tecnologia nenhuma. E isso me incomodou bastante, porque eu e minha equipe trabalhamos com tecnologia. Então, conclamei o grupo de pesquisa que trabalhamos em conjunto, começamos a conversar e um deles já estava pesquisando sobre o assunto — explica o professor João Carlos Lima, um dos idealizadores.
O primeiro equipamento foi produzido de forma experimental, com a junção de peças disponíveis na casa de cada um dos quatro professores. Agora, a Fundação de Apoio a Tecnologia e Ciência (Fatec) vai ajudar nos custos de compra dos materiais necessários. Porém, a equipe busca empresas do setor metalmecânico que estejam dispostas a produzir os adaptadores. Duas já se disponibilizaram.
A estimativa é que 20 equipamentos possam ser produzidos por semana. O custo é de R$ 600 sem o ambu. O kit completo, com o balão que produz o ar, fica na casa dos R$ 750. Além disso, um respirador automático, com dispositivos eletrônicos com baixo custo está em fase de testes.
Em um primeiro momento, o objetivo também era arrecadar respiradores que estavam estragados e consertá-los. Seis foram localizados e dois deles já arrumados. No entanto, para se dedicar ao desenvolvimento dos protótipos, a equipe passou a missão para um outro grupo, que já reúne cerca de 20 pessoas, também do Centro de Tecnologia e do Colégio Técnico Industrial, que ficarão responsáveis pelos consertos.
Por isso, Lima pede que os hospitais da Região Central entrem em contato caso tenham respirados estragados.
Uma preocupação é a certificação dos novos equipamentos para que possam ser usados nos hospitais. Por isso, uma outra equipe da UFSM está trabalhando na parte burocrática. Em um primeiro momento, os protótipos desenvolvidos serão destinados ao Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) e também à Secretaria de Saúde do município.
O Rio Grande do Sul tem 3.485 respiradores em hospitais públicos e privados para atender pacientes com coronavírus. O número é considerado razoável pela Sociedade Brasileira de Pneumologia. Já o presidente Conselho de Secretários de Saúde do Rio Grande do Sul, Diego Espíndola, teme que os municípios não consigam atender a demanda. A Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes Filantrópicos repassou à Secretaria de Saúde que há necessidade de pelo menos 478 aparelhos novos.