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Por coincidência, os dois últimos candidatos ao Oscar de melhor filme que permaneciam inéditos no Brasil estreiam nesta quinta-feira (27): Um Completo Desconhecido, de James Mangold, que entra em cartaz nos cinemas, e Nickel Boys, de RaMell Ross, que desembarca diretamente no streaming, no Amazon Prime Video — aliás, seguindo o mesmo caminho trilhado no ano passado por Ficção Americana, outro concorrente ao principal prêmio da Academia de Hollywood dirigido por um cineasta negro e tendo o racismo no centro da trama.
Por coincidência, Um Completo Desconhecido e Nickel Boys também competem na categoria de roteiro adaptado. O primeiro se baseia em livro do jornalista e historiador Elijah Wald sobre Bob Dylan. O segundo é a versão, por RaMell Ross e Joslyn Barnes, de romance do escritor Colson Whitehead vencedor do centenário prêmio Pulitzer em 2020 e lançado no Brasil como O Reformatório Nickel, em 2019, pela editora Harper Collins.
Por coincidência, os dois títulos se passam na mesma época: os Estados Unidos da primeira metade dos anos 1960, em meio ao movimento pelos direitos civis da população negra. Por coincidência, a duração de cada um é a mesma: duas horas e 20 minutos.
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As semelhanças param por aí. Enquanto Um Completo Desconhecido é uma cinebiografia absolutamente convencional, Nickel Boys é formalmente disruptivo — merecia a tela grande da sala de cinema, como aconteceu com todos os outros nove indicados à principal categoria do Oscar. RaMell Ross oferece ao público a raríssima experiência de assistir a um filme inteiro pelos olhos de um personagem, com a câmera em primeira pessoa comandada pelo diretor de fotografia Jomo Fray, laureado no Independent Spirit Awards e na categoria de revelação da premiação do sindicato da categoria. Somos instados a nos colocarmos literalmente no lugar do outro, para talvez sentir na própria pele, mesmo que por apenas um par de horas, o peso da discriminação racial, vivenciando a dor e a revolta de suas vítimas — mas também o florescer de uma bela amizade.
Colson Whitehead é o mesmo autor de The Underground Railroad: Os Caminhos da Liberdade, que também recebeu o Pulitzer, em 2017, e que foi adaptado em uma belíssima minissérie homônima pelo cineasta Barry Jenkins, em 2021. Ambientada na metade do século 19, antes da Guerra Civil nos EUA (1861-1865), a história acompanha uma jovem escravizada que busca encontrar uma ferrovia subterrânea utilizada para a fuga dos negros — e que é inspirada em uma rede de rotas e esconderijos que realmente existiu.
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Em Nickel Boys, temos um adolescente, Elwood, injustamente confinado em um reformatório da Flórida que, sob a fachada de instituição educacional, esconde condições desumanas e uma rotina de segregação racial, trabalho forçado e violência, inclusive sexual — é importante destacar que o filme evita a exploração sádica do sofrimento. A Nickel Academy é fictícia, mas se baseia nos relatos sobre a Arthur G. Dozier School for Boys, em Marianna, no mesmo Estado. No início dos anos 2000, a escola virou manchete quando centenas de homens negros contaram sobre os abusos físicos e emocionais sofridos lá. Após o fechamento da Arthur G. Dozier, em 2011, uma investigação concluiu que mais de cem corpos foram enterrados no local, muitos com ferimentos de bala ou evidências de agressão, outros tantos em covas sem identificação.
O longa-metragem é a primeira ficção dirigida por RaMell Ross, que disputou o Oscar de melhor documentário por Hale County This Morning, This Evening (2018). Por Nickel Boys, ele ganhou o prêmio de cineasta estreante no DGA Awards, do Sindicato dos Diretores dos EUA, e foi eleito o melhor do ano pela associação dos críticos de Nova York.
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A trama começa em 1962, na cidade de Tallahassee, na Flórida. Criado por uma avó amorosa, papel de Aunjanue Ellis-Taylor, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por King Richard: Criando Campeãs (2021), o garoto Elwood Curtis (encarnado primeiro por Ethan Cole Sharp, depois por Ethan Herisse) parece ter um belo futuro pela frente. Um dia, ele é aceito em um programa universitário gratuito voltado para a população negra. Para ir ao campus, pega carona com um homem negro, mas dá azar: o carro é roubado, e a polícia prende o protagonista como cúmplice.
Por ainda não ser legalmente adulto, Elwood é enviado para a Nickel Academy, onde, segundo o superintendente Spencer (Hamish Linklater, da minissérie Missa da Meia-Noite), um homem branco, bom comportamento pode significar liberdade. Na prática, contudo, os rapazes negros não podem sair até completarem 18 anos, já que o reformatório ganha dinheiro ao empregá-los em serviços na cidade.
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Na primeira meia hora de filme, mal sabemos como Elwood é. Seu rosto aparece aqui e ali, no reflexo de um ferro de passar ou de um espelho retrovisor, por exemplo. Na Nickel Academy, RaMell Ross estende a câmera em primeira pessoa para outro personagem, também interno no reformatório. Turner (interpretado por Brandon Wilson) não apenas possibilita ao espectador enxergar o protagonista, o que, à primeira vista, pode parecer uma concessão de RaMell Ross a padrões cinematográficos. Ele também concede um contraponto, pois é mais cínico e menos esperançoso de que a sociedade um dia vá mudar, enquanto Elwood é um idealista. E Turner também ilustra como a luta contra o racismo é coletiva.
Vale dizer que a alternância de perspectiva pode, por vezes, confundir o público: estamos vendo aquilo pelo olhar de Elwood ou de Turner? O diretor de Nickel Boys também alterna os tempos narrativos: a certa altura, passa a intercalar as cenas no reformatório com cenas de Elwood no presente, sempre mergulhado ou assombrado pelo passado. E Ross insere trechos do filme Acorrentados (1958), de Stanley Kramer, com Sidney Poitier e Tony Curtis nos papéis de dois prisioneiros fugitivos, e acrescenta metáforas visuais (como o trem, que remete à viagem pela memória, por exemplo, ou quem sabe aponta para um destino inescapável) e toques de realismo mágico: de vez em quando, surge um alligator, o jacaré norte-americano. O animal predador tanto simboliza uma ameaça constante quanto alude a um hábito escabroso: segundo o cineasta contou, crianças negras eram usadas como iscas para atrair o réptil no Sul dos EUA.
As idas e vindas no tempo e a inserção de elementos aparentemente aleatórios ou desconexos acabam inflando a duração de Nickel Boys. Mas a alternância entre o passado e o presente se justifica plenamente no impactante epílogo, e as escolhas da montagem assinada por Nicholas Monsour ganham sentido e ressonância à medida que o filme avança. As imagens de arquivo das missões espaciais da Nasa, por exemplo, ecoam no breve monólogo de um personagem coadjuvante, Chickie Pete (interpretado por Craig Tate), que reencontra o Elwood adulto em um bar. Suas palavras de lamento traduzem como o racismo interrompe vidas e anula sonhos, impedindo, por exclusão ou de forma brutal, que mais pessoas possam contribuir para o desenvolvimento social, humano, cultural, econômico de um país.
— Eu poderia ter jogado profissionalmente, se as coisas tivessem sido diferentes — diz Chickie Pete. — Eu poderia estar em uma banda de funk, em uma orquestra. Eu poderia ter sido como um daqueles caras, Haydn, Bach, Vivaldi, apoiando Miles (Miles Davis). Um médico inventando merda, salvando vidas.
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