
O jornalista Vitor Netto colabora com o colunista Rodrigo Lopes, titular deste espaço.
Entre os nomes que se apresentam como possíveis candidatos à Presidência nas eleições de 2026 está o do governador de Minas Gerais, Romeu Zema.
Ferrenho defensor de um Estado mais enxuto e com fortes críticas ao governo do PT, ele conversou com exclusividade com a coluna nesta sexta-feira (4), antes do painel que compartilhou com o governador Eduardo Leite no Fórum da Liberdade, em Porto Alegre.
O senhor está vindo para o evento para a palestra Qual o Futuro do Brasil?. Qual o futuro do país e como o seu governo em Minas Gerais apresenta como lições?
Em 2018, disputei a campanha para o governo de Minas, e a situação do Estado era caótica: um Estado que foi destruído pelo PT. A gestão PT em Minas parece que nos deixou um tijolo em cima de um tijolo: salários atrasados do funcionalismo público, dos aposentados, 13º não quitado, sequestro dos depósitos judiciais do Tribunal de Justiça, que ele foi lá e se apropriou. Não repasse para as prefeituras, daquilo que elas têm direito a título de ICMS e de IPVA. Cidades pequenas, que são a grande maioria de Minas, que tem um posto de saúde com uma placa lá na porta: "Não estamos funcionando, porque não recebemos repasses do governo do Estado". Um Estado totalmente desacreditado, o mineiro ajoelhado no chão, como nunca teve na história. Estou vendo que o Brasil está caminhando nesse sentido hoje, com um governo que acredita que gastança é a solução. Isso não deu certo em nenhum lugar do mundo e não vai dar certo aqui, no Brasil. E parece que não enxerga. Além de gastança, pessoas incompetentes, cabide de emprego e acreditando que os números estão bonitos. Se eu começar a tomar anabolizante hoje, daqui um mês, dois, eu vou estar todo musculoso, todo saradão, bonitão. Mas, daqui a dois, três anos, vou estar muito afetado pelas consequências. Então, é um governo de visão imediatista, que acredita em milagre, e milagre não ocorre. O que eu vejo é que o Brasil precisa se livrar dessas ideias de esquerda, que já destruíram Minas Gerais, e acho que já prejudicaram muito o Rio Grande do Sul. É preciso deixar essas ideias do passado, que já não funcionam mais. No dia que o Brasil ficar livre disso, vamos começar a avançar. E ainda pior: é um governo que olha pelo retrovisor, que, em vez de levar propostas estruturantes, fica perseguindo adversários políticos. Estamos vivendo um momento muito difícil, mas acredito que o ciclo da esquerda vai se encerrar em 2026, definitivamente. Em Minas, ele encerrou. Lá, qualquer candidato da esquerda tem uma dificuldade tremenda, porque o mineiro aprendeu, a duras penas, da pior forma possível, que a esquerda é parte do problema, e não da solução.

Como está a situação hoje em Minas Gerais, já no seu segundo mandato?
Saiu de um déficit de R$ 11 bilhões para um superávit de R$ 5 (bilhões) na minha gestão. Uma diferença total. O último governo que esteve lá antes de mim, do PT, destruiu 220 mil empregos formais. Já criamos 940 mil empregos formais. A folha de pagamento, quando assumi, representava 67%, já caímos para 49%. A dívida representava 190% da receita corrente líquida, hoje já é 162%. Uma trajetória de queda. A cada ano que passa, o Estado tem uma situação financeira menos grave. Nem vou falar que é boa, não. E hoje é um Estado que voltou a ter credibilidade. Já atraímos de investimentos privados, devido a esse retorno da credibilidade, R$ 470 bilhões. Isso é investimento que muitos países do mundo não conseguem atrair. E tudo isso tem feito com que o Estado cresça acima da média Brasil praticamente todos os anos, tenha uma economia mais dinâmica e tenha hoje a menor taxa de desemprego da História desde que essa atual metodologia foi implantada no Estado. E não foi por acaso. Acho que fui reeleito com quase 60% dos votos em primeiro turno. Acho que o mineiro percebeu: (somos) um governo que não tem corrupção, que preza pela transparência. O voo que eu faço nesse mês, no mês que vem, está no Portal da Transparência. Lá, eu não escondo nada, muito menos por cem anos. Quem quer esconder alguma coisa é porque não pode mostrar. Então, é um governo que hoje, de acordo com a Controladoria Geral da União, está em primeiro lugar em transparência dos dados. E quando você tem uma gestão boa, você mostra. Quando você não tem, tenta esconder.
O senhor afirmou que o ciclo do PT, da esquerda, acaba em 2026. O senhor já mostrou a intenção de ser presidenciável. Por que querer governar o Brasil?
Sou um inconformado, um indignado com a politicagem. Foi o que me levou em 2018. Eu nunca tinha me envolvido com política, tinha até aversão. Considerava, e ainda até considero, muitas vezes, a política, dependendo de como é feita, uma atividade semicriminosa. Tem gente que entra na política para se enriquecer. E eu entrei para contribuir. Criei, na minha vida no setor privado, uma empresa que está funcionando, que tem 5 mil funcionários, que dá resultado, e o melhor, que não depende de mim. Está lá profissionalizada, funcionando e dando resultado, gerando riqueza para Minas e também para o Brasil. E o país precisa de gente competente. Eu quero contribuir com o Brasil. Não almejo nenhum cargo. Nenhum, definitivamente. Fui governador por esse inconformismo, porque eu vi que lá, em Minas, tínhamos o PT destruindo o Estado e políticos envergonhando o Estado. É só você olhar o histórico de Minas Gerais, que você vai ver que teve muito político lá que nos envergonhou. E ou mineiro, admiro o meu Estado, e vi como governantes ruins que Minas teve podem prejudicar o desenvolvimento. Eu precisava de uma licença ambiental, eram quatro anos para alguém dar uma assinatura. Eu precisava de um regime tributário especial, era um parto para poder conseguir aquilo. Então falei: "Posso até não ganhar, e a chance era muito maior do que a de ganhar, mas, pelo menos, vou demonstrar esse meu inconformismo e indignação". E acho que 6 milhões de mineiros pensaram como eu, porque votaram em mim. Estamos lá para mostrar que é, sim, possível fazer uma política ética com transparência, e que dá resultado. Diferente de tudo que está aí. E eu não sou político, o meu discurso é um pouco diferente do deles. Conheço de gestão, eu conheço de entregar resultado. Não sou de ficar tomando cafezinho. Vim para Porto Alegre e tenho compromisso das 7h30min até à noite, um atrás do outro. E tem político que vai para poder fazer turismo, infelizmente. É um ritmo de trabalho diferente. Duas semanas atrás, fiquei satisfeito porque bati um recorde: em um dia eu fui a 10 cidades em Minas Gerais. Meu recorde anterior era nove. Costumo medir por essas entregas. É uma agenda pesada, mas que dá resultado. Minas tem 300 mil funcionários. Sabe quantos parentes eu tenho no Estado? Zero. E olha que tenho muita gente competente na família. Você acha que eu moro no palácio? Moro em uma casa que eu aluguei. Você acha que eu tenho 32 empregadas igual ao ex-governador? Tenho uma diarista que vai duas vezes por semana, que eu pago. Na hora em que quero tomar café, vou lá e coo. Não tenho garçom nem governanta nem maitre, como o ex-governador tinha. Quem quer fazer, dá o exemplo. Quem não quer, fica fazendo discurso aí, como o governo federal e o presidente têm feito.
Mas a política atual conta com esses "cafés" e esses contatos. Como o senhor acha que pode mudar isso?
Não é tão difícil não. Fui reeleito em 2022, com uma aliança de nove partidos. Mas já tinham visto que em Minas Gerais o nosso governo tinha feito toda a diferença. Quando você joga bem, quando está ganhando os jogos, tem muita gente que quer jogar junto com você. Nós colocamos as regras. "Você pode vir, eu não te asseguro nada". "Se você tem gente boa, você pode indicar, vai passar pelo processo seletivo, vai vir trabalhar conosco". Se não tiver bom desempenho, se fizer alguma coisa errada, está fora". Transparência. Definir as regras que beneficiam um bom serviço público, e não um cabide de emprego, como tem acontecido no governo PT: para gente ruim, que assedia, rouba, que provoca escândalo, etc. Tem muita gente boa em todo lugar e muita gente ruim. Ser do partido A, B ou C não caracteriza que é bom ou ruim. Nem ser parente de deputado. O que olhamos é para competência entregue. É fácil.

Para 2026, há vários nomes: Raquel Lira, Eduardo Leite, Tarcísio Freitas, Ratinho Jr e outros. Como é que o senhor avalia o atual cenário?
Acho que da diversidade se extraem boas coisas. Em uma democracia, quanto mais diversos os candidatos, melhor. Acho que temos de escutar todos. Cada linha tem a sua contribuição a dar. Vejo como muito positivo. Agora, o Brasil precisa de gestão. Somos um país que, na minha opinião, nunca deveria ser o que tem mais ministérios no mundo. Não é quantidade que leva. Não é você ter numa casa a passadeira, a cozinheira, a faxineira, a babá do filho 1, a babá do filho 2, que vai fazer você ter uma casa bem organizada, um lar feliz. É você trabalhar duro que faz isso. E aqui, no Brasil, parece que estamos confundindo o Estado grande com o Estado bom. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. E para fazer essa diferença é com gestão. Sabe qual o Estado do Brasil que tem menos secretariado? O de Minas. E é o segundo mais populoso: 21 milhões de habitantes. Tem 14 secretarias. E funciona bem. Vejo que é essa visão. Uma visão de entregar resultados. Apesar de eu ser bem avaliado, você sabe quem vai ser mais bem avaliado do que eu? Meu sucessor. Porque ele vai entregar muito mais obras do que eu. Falo que lá plantei foi mogno e eucalipto, que amadurecem em sete, oito, 15 anos. Plantei muito pouco milho e soja, que você colhe seis meses depois. Recebi um cemitério de obras inacabadas, depredadas, vandalizadas, que o PT parou tudo lá em Minas Gerais. Todas as obras foram paralisadas. E vou entregar o contrário. Um Estado que é um canteiro de obras em andamento. E com as maiores obras das últimas décadas iniciadas. Rodoanel Metropolitano, igual ao de São Paulo. Linha 2 do metrô em andamento. Duplicação de Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana. As maiores obras dos últimos 50 anos ou da história de Minas Gerais estão sendo iniciadas. Esse é o governo que o meu sucessor vai receber. E que eu espero seja Mateus Simões, que é o meu vice-governador e meu braço direito. E, independente de conjuntura econômica, política, essas obras vão acontecer porque o recurso está reservado. Fizemos uma coisa muito diferente. Em vez de ficar brigando na justiça, gastando com advogado. Nós fizemos o acordo de Brumadinho, que aconteceu no primeiro mês da minha gestão, que naquela ocasião foi o maior acordo do Brasil, que serviu para fazer depois o acordo de Mariana. Que tinha acontecido três anos antes e nada tinha sido feito. Foi o maior acordo do mundo, até hoje. Mostrando que é muito melhor ter cinco hospitais funcionando agora do que 10 funcionando daqui a 20 anos. Nós mudamos esse modo de pensar, algo que nunca tinha sido feito no setor público no Brasil.
O senhor acredita que é possível reverter a inelegibilidade do ex-presidente Bolsonaro?
Acredito que sim. Vejo que as acusações contra ele muitas vezes não procedem. Espero que seja revertido.
Um dia depois do STF tornar Bolsonaro réu, o senhor publicou uma mensagem de apoio ao ex-presidente nas suas redes sociais. O senhor acredita que ele teve relação com os atos do 8 de janeiro?
Ele inclusive não estava no Brasil. Acho pouco provável. Aquilo ali foi uma manifestação, como já tivemos centenas no Brasil, de caráter popular e incorreta. Sou totalmente contrário a qualquer manifestação que deprede, que cause vandalismo, e até mesmo que interrompa trânsito. Manifestação, para mim, tem de ser ordeira. Vai para praça, grite, faça o que achar adequado, mas sem afetar patrimônio privado, público, o direito de ir e vir das pessoas. Acho que ele (Bolsonaro) não teve nada a ver com isso.
O senhor acha que os atos do 8 de Janeiro foram uma ameaça à democracia?
Foram um ato de vandalismo. Nunca vi qualquer tentativa de golpe de Estado no mundo onde idosos participaram, mulheres desarmadas, como aconteceu no dia 8 de Janeiro. Pessoas que estavam lá insatisfeitas fizeram errado, precisam ser condenadas, pagar as penas, as multas, mas não pena de 14 anos.
Como o senhor avalia a atuação do STF no caso?
Parcialidade total. Um julgamento político. O que aconteceu com manifestantes que já entraram em ministério, do MST, em anos anteriores? Tem alguém detido? Pessoas que estavam questionando o governo naquele momento, como aconteceu no dia 8 de janeiro? Para mim, é um tratamento totalmente desigual e, nesse último caso, desproporcional. Todo ato de vandalismo precisa ser punido, mas não com pena de 14 anos.
Se Bolsonaro conseguisse reverter o processo de inelegibilidade e pedisse apoio ao senhor. Abriria mão da candidatura para apoiá-lo ou aceitaria um convite para ser vice?
Tem que ficar muito claro aqui: tenho um projeto para o Brasil, e não um projeto para o Romeu Zema. Vou passar, o Brasil vai continuar. O que eu quero é um país bom, um país que desenvolva, que acabe com a corrupção no que for possível, que tenha mais transparência, que tenha mais gente competente e menos gente incompetente e cabide de emprego. Esse é o Brasil que sonho. E o presidente Bolsonaro é, mesmo que não gostem dele, o maior líder da direita. E ele, sendo um candidato, teria, sim, o meu apoio. Quero um Brasil melhor, independente de cargo. Não estou atrás de cargo. Tenho muito o que fazer na minha vida. Eu me considero mais empreendedor do que político. Tenho muito o que contribuir se eu passar para o outro lado do balcão ainda.
Sobre o projeto de anistia aos participantes dos atos de 8 de Janeiro. O senhor é favorável a esse projeto?
Até diria que o que deveríamos ter no Brasil, primeiro, uma Justiça imparcial. Parece que, como não temos, precisamos apelar para alguma coisa que se chama anistia. Mas aquelas pessoas que depredaram o patrimônio público, na minha opinião, devem seguir a lei ao pé da letra. Se alguém estraga o seu carro, você pode pedir ressarcimento. Então, na minha opinião, devem pagar pelo que fizeram. Agora, falar que estão contra a democracia, aí é interpretação e não do que está na lei. É alguém querendo ir para um lado que não é efetivamente aquilo que aconteceu. Houve, sim, depredação de patrimônio público. Pague por isso, de acordo com a lei. Agora, falar que é golpe de Estado, que uma mãe de dois filhos, cabelereira, está conspirando contra a democracia, parece que é um grande exagero nesse caso.
Recentemente o senhor contratou um marqueteiro para ter mais abrangência no Brasil. O senhor acha que, atualmente, a população do país conhece o senhor?
Acho que sou um nome bem desconhecido. Talvez seja um pouco mais conhecido em Minas. O que tenho tentado é mostrar para o Brasil que, quando temos uma gestão PT que detona tudo, que destrói tudo, uma gestão boa, como a que nós fizemos em Minas, com pessoas competentes, capacitadas, bem-intencionadas, consegue reverter e entregar bons resultados. O que nós temos é de mostrar para o Brasil todo que, em Minas Gerais, saímos da catástrofe, da tragédia, para uma situação que está longe de ser muito confortável, mas para uma situação que nem se compara com aquela de quando assumi o governo. Lembrando que, em Minas, os municípios não recebiam repasses do ICMS, (o pagamento do) funcionário atrasado, décimo terceiro, e isso tudo hoje é passado.