
Voltei a ver novela, e a "culpa" é de Vale Tudo. Eu tinha nove anos quando a trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères estreou na TV Globo, em 1988, e nunca esqueci quem matou Odete Roitman. Agora, aos 45, entendo por que aquela história fez (e continua fazendo) tanto sucesso: é um retrato do que temos de pior e de melhor.
O pano de fundo é o dilema ético que permeia o Brasil desde os tempos da colonização de exploração empreendida pelos portugueses: vale a pena ser honesto no lugar onde impera o "jeitinho"? Valores éticos podem ser elásticos e mudar conforme sopra o vento?
A novela fala da corrupção nossa de cada dia, da figura do brasileiro esperto, que aprende desde cedo a tirar vantagem de tudo (e a se orgulhar de passar a perna nos outros).
Maria de Fátima, a protagonista que trai a própria mãe para subir na vida, não vê problema em burlar regras em troca de pequenos benefícios, como se isso não fosse o mesmo que surrupiar milhões dos cofres públicos.
Corrupção é corrupção, não importa o tamanho nem quem pratica (político ou pessoa "comum"). Mas nem todo mundo pensa assim, e é precisamente por isso que Maria de Fátima, magistralmente interpretada por Bella Campos (no lugar de Gloria Pires), é tão fascinante. Ela é ardilosa, safa e sagaz e é, também, o estereótipo do qual deveríamos nos envergonhar.
Tudo isso está traduzido na novela, desde a música de abertura. Composta por Cazuza, a canção é interpretada por Gal Costa como um soco no estômago, quando diz "Brasil, mostra a tua cara, quero ver quem paga para a gente ficar assim". É visceral.
Ao mesmo tempo, Vale Tudo mostra um Brasil bonito, alegre, cheio de belezas e de esperança. É o Brasil de 1988, ano da promulgação da Constituição Cidadã, como dizia o finado Ulysses Guimarães.
O país vivia a efervescência da redemocratização e depositava todas as fichas nas eleições diretas de 1989. Havia, sim, hiperinflação e uma desigualdade social brutal. Havia muita pobreza e miséria. Mas havia também uma expectativa quase palpável de dias melhores. Era como se as pessoas dissessem: "Agora, vai".
Depois, aconteceu tudo o que a gente já sabe. A novela, tristemente, segue mais atual do que nunca, e o Brasil, bem, o Brasil ainda é o eterno país do futuro.