
Kadão foi imenso, em todos os sentidos: tamanho, generosidade, gentileza, profissionalismo. Foi um colega e um amigo inesquecível, e é em homenagem a ele que escrevo esta despedida.
Ricardo Chaves, um dos maiores fotojornalistas que este Brasil viu nascer, partiu na última sexta-feira (4), aos 73 anos, em Porto Alegre. Lutava contra um câncer na bexiga. Deixou do lado de cá a eterna companheira Loraine, dois filhos e dois netos incríveis. E deixou, também, muitos outros órfãos no jornalismo.
Lembro dele desde o meu primeiro dia na profissão. Comecei a ensaiar os passos na carreira em 1999, quando ainda era estudante e entrei em Zero Hora. Ele já era grande e, mesmo com os novatos, era generoso e atencioso.
Editor de fotografia de Zero Hora, tinha a voz respeitada e reconhecida pelos pares. Se Kadão falava, estava falado, ele não precisa aumentar o tom de voz. Era sempre gentil e bonachão, e isso o tornava ainda mais estimado. A sabedoria transpirava pelos poros.
Quando me formei, tive a honra de fazer reportagens com Kadão e de viajar com ele pelo Interior, em busca da notícia. Eram as melhores aventuras, porque ele não era apenas um excelente fotógrafo. Era um baita contador de histórias. Sentado no banco de trás do veículo, passava o tempo todo relembrando grandes coberturas, coisa de filme mesmo.
Fotografou na Sibéria, a 40ºC negativos. Foi ao Vietnã, a Cuba, a Moçambique, à Rússia, à Austrália e ao Japão, sempre a serviço do Jornalismo, assim, com jota maiúsculo.
Esteve na Amazônia, fez retratos de dezenas personalidades (de Xuxa a Fidel Castro), cobriu Copas do Mundo, corridas de Fórmula 1 e registrou a volta de Brizola do exílio.
Acompanhou a primeira visita do Papa João Paulo II à Polônia. Testemunhou a promulgação da Constituição Cidadã e a posse de Fernando Collor. Imortalizou em suas lentes alguns dos principais fatos do Brasil e do mundo no século 20.
Atuou em grandes veículos em Porto Alegre, no Rio, em São Paulo e em Brasília. Costumava dizer assim: "A gente fotografa com tudo o que a gente é, com tudo o que viveu". E como ele viveu.
Kadão, sentiremos tua falta. Daqui, ainda posso sentir o cheiro do teu cachimbo na redação de ZH. Lembro, também, da hospitalidade, tua e da Loraine, na casa de Remanso, onde vocês sempre receberam os colegas que trabalhavam nas temporadas de praia com afeto e comida boa. Jamais vou esquecer dos ensinamentos, para a profissão e para a vida.
Obrigada por tudo.