
Há 10 meses, me apaixonei pelo projeto de revitalização do Cais Mauá. Foi amor a primeira vista. Numa manhã de outubro de 2018 fui recebido pelo então novo gestor da empresa Cais Mauá do Brasil, Eduardo Luzardo.
O uruguaianense sabia muito de Porto Alegre. Foi criado aqui. E ele era a aposta do grupo de investidores que pretendia concretizar um dos maiores sonhos dos gaúchos, assim como já ocupou os nossos corações a ideia de termos uma nova linha do metrô.
Lembre-se que, quando Luzardo chegou no Cais, a revitalização já havia trocado de mãos um par de vezes. Todos os gestores anteriores sucumbiram à burocracia ou à falta de interesse ou de vontade.
Mas aquela proposta era diferente. Desde que o contrato de arrendamento foi assinado, em 22 de dezembro de 2010, nunca se cogitou a se executar a revitalização de forma parcial. Torres comerciais, grandes espaços gastrônomicos, roda-gigante no estilo da inglesa London Eye, espaços generosos para o polo inovador. Tudo já se falou sobre o Cais Mauá.
Mas, naquela manhã, dentro do antigo prédio da Superintendência de Portos e Hidrovias (SPH), fui fisgado pelo projeto, que chegou a ganhar o apelido carinhoso de "aperitivo".
Luzardo sabia o tamanho do desafio. O primeiro abacaxi que teve que descascar veio da prefeitura de Porto Alegre. A ideia, à época, era ver o Embarcadero aberto em março de 2019, no aniversário da cidade. Meses de reuniões, atualização do projeto de Jaime Lerner, obtenção de novas licenças ambientais. Não foi fácil. E, mais uma vez, a burocracia venceu.
Com a saída do governo Sartori e a chegada do governo Leite, ninguém esperava a reviravolta que viria. Em fevereiro de 2019, as máquinas apareceram no trecho entre a Usina do Gasômetro e os armazéns do Cais. Á área começou a ser limpa. O projeto começou a ganhar forma.
Porém, nas semanas seguintes, o novo governo passou a dar o recado que não estava gostando do que se inteirava. Em março, a Cais Mauá do Brasil foi notificada por não cumprir as exigências estipuladas no contrato.
Neste meio tempo, os nomes das empresas DC Set e Tornak foram divulgadas. o projeto parecia ganhar força, mas o governo Leite já havia tomado sua decisão. Em abril, um grupo de trabalho formado por integrantes da Secretaria Estadual dos Transportes e da Superintendência do Porto do Rio Grande pediu a rescisão do contrato. Em maio veio a confirmação e em 24 de julho foi publicada, no Diário Oficial do Estado, a confirmação da rescisão do contrato.
Não demorou para a batalha judicial ser iniciada. A partir daqui, não se sabe o que irá acontecer. O governo gaúcho também gostou do "aperitivo". Se chegou a prever que o espaço poderia ser aberto até o fim de 2019.
Atualmente, não há garantias. Há incertezas. E tenho receio que empresários queiram colocar seu dinheiro num projeto tão esquecido quanto os atuais armazéns.