
O ministro da Saúde, Marcelo Castro, afirmou na manhã desta quarta-feira que a situação do zika vírus no Brasil "está sob controle" e que, "apesar das dificuldades econômicas" da administração federal, não faltará dinheiro para matar mosquitos e pesquisar uma vacina.
A declaração reverte o tom das últimas respostas do governo sobre a epidemia. No dia 22, Castro causou controvérsia ao afirmar que o país estava "perdendo feio" a batalha para o mosquito Aedes aegypti. Uma semana depois, a presidente Dilma Rousseff afirmou que se tratava de uma "constatação da realidade" e que a luta seria perdida enquanto o inseto continuasse se reproduzindo.
Leia mais:
Anvisa registra teste que detecta zika, chikungunya e dengue de forma combinada
Texas informa caso sexualmente transmissível de zika
Novo teste pode aumentar diagnósticos de microcefalia ligada ao zika
Castro falou em Montevidéu, antes de uma reunião emergencial com outros ministros da Saúde de países latino-americanos.
– A situação está sob controle. Estamos fazendo todas as ações necessárias e indispensáveis, mas um esforço sempre maior é necessário ser feito – disse.
Segundo ele, há 4,7 mil casos suspeitos e 400 confirmações de microcefalia, casos de bebês que nasceram com crânios menores que o normal e problemas neurológicos. O governo associa esses casos ao vírus.
– Há um compromisso do governo brasileiro, apesar de estar passando por dificuldades econômicas, de não faltar recursos para ações de combate a essa virose. Principalmente para vacinas, há um compromisso público da presidente Dilma Rousseff de que não faltarão recursos públicos para o combate a essa epidemia de microcefalia causada pelo zika vírus – acrescentou.
Castro disse que no dia 11 chegarão ao Brasil técnicos americanos para trabalhar em uma vacina contra o vírus. A parceria foi negociada em telefonemas entre a presidente Dilma e o americano Barack Obama, e do próprio Castro com a secretária de Saúde dos EUA.
Questionado se o controle de fronteiras era uma preocupação, Castro relativizou a tentativa de bloquear a passagem de um país a outro:
– O vírus de certa forma já se espalhou por todo o continente. O mais importante são ações conjugadas, efetivas, compartilhamento de experiências e ações conjuntas no hemisfério para combater o mosquito. É a arma de que dispomos no momento.
Ele admitiu que, no fim de abril, quando a doença foi identificada na Bahia, os sintomas eram considerados mais leves que os da dengue, transmitida pelo mesmo inseto.
– Seis, sete, oito meses depois é que vieram as consequências mais graves, porque apareceram os casos de microcefalia – lembrou o ministro.
"Enquanto o mosquito não estiver controlado, o zika vírus também não está"
A afirmação do ministro da Saúde não encontra eco entre especialistas ouvidos por Zero Hora. Para Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury, principal laboratório de medicina diagnóstica do país, e Paulo Behar, chefe do Serviço de Infectologia da Santa Casa de Porto Alegre, a contenção do vírus está necessariamente atrelada ao controle do mosquito Aedes aegypti.
– (A situação) não está sob controle de forma nenhuma. Os números estão aí. A estatística da dengue mostrou uma explosão em janeiro. Isso significa que o Aedes está por aí, e não tendo o controle do mosquito, não se tem o controle das doenças que ele transmite. Se tivesse vacina, o cenário seria bem diferente, mas ainda deve levar alguns anos para isso – diz Granato.
– Enquanto o mosquito não estiver controlado, o zika vírus também não está. Para se dizer que uma doença está controlada, tem que antes dizer que o mosquito está controlado. Estão sendo feitos esforços, mas ainda é só um objetivo, a situação não está sob controle – completa Behar.
*Estadão Conteúdo e Zero Hora