
A cada temporal como o que castigou a Região Metropolitana na segunda-feira (31), junto com a chuva, despencam transtornos sobre a população de Porto Alegre, que sofre com alagamentos, falta de energia elétrica e de abastecimento de água. Na avaliação de especialistas, parte importante da solução para esses problemas depende do aumento da confiabilidade da rede de energia que atende a população em geral e, em particular, estruturas de drenagem e de bombeamento e tratamento de água do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae).
Nesta terça-feira (1°), uma reunião entre equipes técnicas da prefeitura e da CEEE Equatorial detalhou um plano que mira esse objetivo. A estratégia prevê três medidas:
- Implantação de linhas exclusivas para atender unidades do Dmae localizadas na mancha de inundação registrada na enchente 2024;
- Dupla alimentação proveniente de diferentes subestações elétricas;
- Remanejo automático entre as subestações em caso de falta de energia.
A intenção é que o novo sistema beneficie todas as casas de bombas e as principais estações de tratamento de água do município com suas respectivas unidades de bombeamento. A próxima etapa será calcular o valor de implantação e o custo mensal desse aparato — o que deve ocorrer nas próximas semanas, mas ainda sem data exata para o projeto se concretizar.
Vulnerabilidades
Hoje, 11 instalações variadas do Dmae são contempladas com alimentação dupla, ou seja, por linhas elétricas que partem de diferentes alimentadores (equipamentos que levam a energia das subestações aos transformadores de cada região). Porém, existem vulnerabilidades:
- Os alimentadores estão ligados a uma mesma subestação de energia;
- A alternância entre um alimentador e o outro precisa ser feita de forma manual, o que resulta em perda de agilidade;
- As estações estão conectadas à rede geral de energia.
Se a região for inundada, como ocorreu durante a cheia de 2024, a concessionária precisa desligar o abastecimento nas imediações por razões de segurança — e a casa de bombas ou a estação de tratamento de água acaba ficando desabastecida também.

O engenheiro eletricista e de segurança do trabalho Renê Reinaldo Emmel Júnior, conselheiro titular e coordenador da Câmara Especializada de Engenharia Elétrica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado do Rio Grande do Sul (Crea-RS), afirma que a vinculação das estruturas do Dmae a subestações diferentes já seria um avanço importante.
— Se ambos os alimentadores estão vinculados à mesma subestação elétrica, e ela apresentar falhas específicas, há risco significativo de comprometimento simultâneo dos alimentadores. Embora não seja comum uma falha afetar integralmente uma subestação que atende diversos alimentadores, quando isso ocorre, a consequência é uma interrupção generalizada — esclarece Emmel.
Esse tipo de falha ocorreu durante o temporal da terça-feira, conforme declarou o diretor-geral do Dmae, Bruno Vanuzzi, em entrevista na Rádio Gaúcha:
— As estações de tratamento São João, Moinhos de Vento e Menino Deus contam com dupla alimentação. Respondem por 75% do tratamento de água de Porto Alegre, mas essa dupla alimentação não funcionou.
Impacto da cheia de 2024
Ao longo dos últimos meses, o plano para aumentar a segurança desse sistema foi sendo ajustado para levar em conta os impactos sofridos principalmente durante a cheia de maio de 2024. A nova formulação passou a se apoiar nos três pontos principais para deixar a cidade menos vulnerável.
— Os estudos começaram após um temporal em novembro de 2023. Mas, depois da enchente de maio, tivemos de rediscutir como aumentar a segurança do sistema. Não adiantaria ter alimentação dupla e remanejo automático se fosse preciso desligar a rede na região por conta de alagamento. Então concluímos que seria necessário também ter rede dedicada (exclusiva) — explica o diretor de Proteção Contra Cheias e Drenagem Urbana do Dmae, Alex Zanoteli.
Em caso de inundação, com cabos que atendem especificamente as unidades do Dmae, a concessionária poderia desligar a luz no entorno, mas manter em operação as estruturas de drenagem e de tratamento. A intenção é beneficiar pelo menos 31 pontos por esse novo sistema, o que inclui as 23 casas de bombas existentes na cidade e conjuntos de bombeamento e tratamento de água.
Uma dessas linhas dedicadas, de acordo com os estudos técnicos, sairia da subestação da CEEE Equatorial localizada nas proximidades da Arena, no bairro Humaitá, e seguiria até à região da Rodoviária, no Centro.
— Com essa linha, conseguiríamos conectar várias estações de bombeamento de água pluvial, e as estações de captação de água bruta das estações de tratamento Moinhos de Vento e São João. Se houver um curto-circuito em um transformador, se houver uma inundação, as estações poderão continuar funcionando — complementa Zanoteli.
O projeto prevê outras linhas exclusivas de diferentes dimensões, cujo trajeto definitivo ainda depende de ponderações técnicas da CEEE Equatorial, segundo a prefeitura.
Em nota, a concessionária de energia informou que "a dupla alimentação de energia para as Estações de Bombeamento do Dmae vem sendo debatida desde o ano passado". Conforme a empresa, "em uma reunião no mês passado, o Dmae solicitou estudos adicionais ao que fora solicitado anteriormente, incluindo todas as EBAPs e mais estações prioritárias, para que tenham redes elétricas com caráter de exclusividade a partir de duas subestações distintas".
Ainda de acordo com a CEEE Equatorial, na manhã desta terça, "foram apresentadas ao Dmae essas alternativas, e novos ajustes nas soluções propostas foram solicitados. Dessa forma, a CEEE iniciou imediatamente as atualizações dos estudos e orçamentos e encaminhará novamente, ainda esta semana, o resultado para manifestação da Autarquia".

Próximas etapas
A estratégia que vem sendo elaborada ao longo dos últimos meses por técnicos do Dmae e da CEEE Equatorial para reduzir a vulnerabilidade dos sistemas de drenagem e abastecimento ainda precisa superar diferentes etapas para sair do papel. Uma nova reunião para tratar de custos deve ser marcada ainda no mês de abril, conforme Alex Zanoteli.
O custo de implantação das novas linhas ficaria sob responsabilidade da prefeitura, além do valor mensal a ser pago à concessionária pela disponibilidade da dupla fonte de alimentação energética. Hoje, de acordo com Zanoteli, há um desembolso mensal de aproximadamente R$ 250 mil para as 11 unidades atendidas (que deverão triplicar).
Depois de definidos os orçamentos — e mantida a decisão política de desenvolver o projeto — será preciso avaliar com a Procuradoria-Geral do Município (PGM) como seria feita a contratação de uma empresa para implantar as linhas exclusivas.
— Temos de ver se precisamos abrir licitação ou se é algo que se possa fazer por dispensa (licitatória) — afirma o diretor de Proteção contra Cheias do Dmae.
Uma vez superados os trâmites burocráticos, conforme a prefeitura, há um prazo definido por regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de até um ano para a realização desse tipo de serviço.
O engenheiro eletricista Renê Reinaldo Emmel Júnior avalia que uma alternativa ainda mais segura seria a implantação de cabos subterrâneos para reduzir o risco de que a eventual queda de vegetação comprometa o abastecimento.
— É uma alternativa técnica mais robusta, embora com custos e complexidades maiores — complementa Emmel.
Alex Zanoteli esclarece que o projeto em andamento prevê cabos aéreos, mas do tipo protegido — ou seja, que não desarmam quando são atingidos por galhos. Segundo o representante do Dmae, somente o rompimento da fiação pela queda de algo muito pesado poderia comprometer o fornecimento.