
É consenso entre especialistas que a prevenção da violência no ambiente escolar exige esforços coletivos e que não há fórmula imediata e pronta. O entendimento é de que as soluções ultrapassam os muros das escolas, exigindo um olhar cada vez mais atento das famílias e ações concretas de quem está à frente do sistema. O tema voltou ao centro das atenções após uma professora ser esfaqueada por alunos em uma escola municipal de Caxias do Sul na última terça-feira (1º). Ela recebeu alta no dia seguinte e se recupera em casa.
A pró-reitora de Graduação da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e doutora em Educação, Terciane Ângela Luchese, opina que a sociedade vive uma espécie de confronto, entre quem são os indivíduos, o que querem e quais os caminhos para uma convivência conjunta. Nesse sentido, entende que a violência não pode ser explicada apenas pensando na instituição escolar.
— As salas de aula são espaço que refletem o que vivemos em sociedade. É preciso repensar como estamos educando nossas crianças e jovens. Olhar atentamente para os valores e o modo de vida que estamos construindo nas famílias, nas comunidades. Nada disso é simples de se resolver. De um lado, temos uma população que vive situações de desigualdade social intensa, urbanização, mudanças profundas nos processos de socialização e convivência. Vidas conturbadas, apressadas, um estresse entre adultos que reverbera nas crianças e nos jovens. Estamos sem paciência, doentes e cada vez mais individualistas — opina.
Na mesma medida, para a especialista da UCS, é preciso que as famílias se comprometam com o ensino, a começar pela convivência diária, com a construção de limites a partir do diálogo e a educação das emoções. Respeito, responsabilidade e valores são outras palavras-chave mencionadas para uma convivência pacífica dentro e fora das escolas.
Viver em sociedade é compreender que temos limites e normas. E que é preciso respeitar. Respeitar a si e aos outros. Não podemos terceirizar as responsabilidades
— Viver em sociedade é compreender que temos limites e normas. E que é preciso respeitar. Respeitar a si e aos outros. Não podemos terceirizar as responsabilidades. Filhos, estudantes, crianças e jovens são seres em formação e precisam entender e aprender sobre amor, sobre valores e também sobre normas que existem e precisam ser respeitadas. Além disso, a escola é espaço de convivência e de diversidade. Aprender é processo exigente. Todos precisam estar comprometidos — acrescenta.
"A escola tem que ser uma comunidade viva, onde os alunos tenham vontade de estar"
A psicanalista, professora e doutora em Educação Claudia Flores Rodrigues, por sua vez, entende que é preciso, primeiramente, compreender e mapear os tipos de violência, além de admitir que as instituições e os profissionais da educação sofrem com um desamparo social. A especialista concorda que os valores, como ética e solidariedade, devem ser construídos desde a infância, no ambiente familiar:
— Tem que começar em casa, mas precisa continuar na escola. E quando chega na escola, a gente sabe, os professores estão cansados, se sentindo desestimulados, desamparados, porque é um trabalho que não cessa, que não tem o reconhecimento e o acolhimento da própria sociedade — avalia Claudia.
A psicanalista joga luz também sobre a sensação de pertencimento dos estudantes. É necessário, na visão dela, que os alunos se identifiquem com as instituições e que eventuais problemas sejam comunicados aos responsáveis com assertividade.
As escolas precisam ser assertivas, ter uma comunicação não-violenta
— A escola tem que ser uma comunidade viva, onde os alunos tenham vontade de estar. Infelizmente, não há esse desejo e essa sensação de pertencimento. E como se constrói isso? Pela via da palavra, pela via da escuta sem julgamento, da escuta pela escuta. Porque o que acontece, muitas vezes, é que, por falta de habilidade ou cansaço, muitos gestores acabam falando da indisciplina dos alunos de uma forma tão rude que os pais ficam mais furiosos ainda com a escola. As escolas precisam ser assertivas, ter uma comunicação não-violenta — ensina Claudia, acrescentando:
— Acho que um primeiro passo eficiente é o de formar pequenos grupos para criar espaços de fala sem julgamento. Mas, para isso, a gente tem que ter professores preparados, motivados e que se sintam pertencentes, com proteção. É como uma família — finaliza.
Para promover a paz

Se as soluções para a pacificação envolvem o pertencimento, a escuta ativa e esforços coletivos, o rapper e escritor Chiquinho Divilas está no caminho certo com a mais recente edição do projeto Tratado de Paz. A iniciativa segue até o fim deste mês em cinco escolas municipais de Caxias do Sul.
Cada instituição recebe atividades ligadas à música, à poesia e à educação ao longo de três dias.
— O primeiro é a palestra Tratado de Paz, no qual eu conto um pouquinho da minha história, do fracasso escolar até o doutorado. Explico a forma que eu inovei para poder estudar, que era rimar a matéria, já que eu estava hipnotizado pelo rap. Depois, rimamos através das ideias, com o tema da paz. No dia seguinte, gravamos a música de forma profissional, dentro da sala de aula. E no terceiro dia, eu brinco que é o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso), onde eles apresentam o que fizeram nas oficinas (batalha de rima, Pajada, DJ e grafite) — explica.
Questionado sobre a paz, Chiquinho caracteriza como um "sonho de menino". Ele acredita que o fortalecimento da educação começa nos primeiros anos da infância e com a mobilização de toda a sociedade.
— É um sonho de moleque. E a gente sabe que quando não temos um ambiente de paz, ficamos sobrecarregados, principalmente o jovem pobre — afirma.
O fechamento do programa ocorre com a entrega de uma bandeira da paz, simbolizando a passagem do projeto pela escola e firmando um compromisso dos alunos com esta causa.
Vereadora propõe instalação de botões de pânico
A vereadora Rose Frigeri (PT) pretende reacender o debate sobre uma proposta levada por ela ao Legislativo ainda em 2023, após o ataque a uma creche em Santa Catarina gerar uma onda de sensação de insegurança na comunidade escolar de toda a região. Trata-se da instalação de botões de pânico nas escolas públicas e privadas de Caxias do Sul.
A justificativa é de que o dispositivo gera uma ação rápida de socorro às escolas. A proposta foi desarquivada e está, atualmente, sob análise da Comissão de Constituição, Justiça e Legislação da Câmara de Vereadores. Outra ação é o reencaminhamento ao Executivo de uma carta com propostas em diferentes áreas, como segurança, assistência social e cultura.
— Precisamos trabalhar de forma interdisciplinar, porque a questão é muito ampla. As escolas, a comunidade onde a intuição está localizada, têm que ter oferta de esporte, de cultura, de saúde. Sabemos que temos estudantes esperando há anos por atendimento psiquiátrico. A violência na escola só reflete a violência da sociedade — aponta a vereadora.