
O envelhecimento da população autista e o diagnóstico tardio são assuntos que ainda precisam avançar no conhecimento público, mas que são cada vez mais recorrentes nos consultórios médicos. O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data estabelecida desde 2007 em 2 de abril pela Organização das Nações Unidas (ONU), é um momento importante para trazer luz sobre estes e outros temas que preocupam as famílias.
— São perguntas que a gente escuta muito dos pais. Sempre tem aquela preocupação se o filho vai conseguir trabalhar, se ele vai conseguir ter autonomia, se vai se desenvolver sozinho — reitera a médica de família e especialista em neurodivergência da Jordani Mental Care, Morgana Pelegrini.
Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição de saúde caracterizada por desafios em habilidades sociais, comportamentos repetitivos, fala e comunicação não-verbal, sendo que os sintomas geralmente se manifestam nos cinco primeiros anos de vida.

A independência, para a médica, é uma realidade na vida de adultos com autismo. No entanto, ela aponta que o grau de autonomia depende das individualidades de cada um, visto que a condição é um espectro, ou seja, apresenta uma variedade de sintomas e níveis de gravidade.
— Autistas podem ser independentes, sim. Claro que, se a gente está falando de autismo, vamos ter pessoas que vão precisar de um suporte, mas, às vezes, esse suporte é apenas uma psicoterapia, uma medicação — explica a médica.
Confira, abaixo, a entrevista completa com a especialista.
Pioneiro: o autismo diminui a expectativa de vida das pessoas?
Morgana Pelegrini: o autismo em si, não. Mas, geralmente, os autistas têm outras comorbidades associadas. Algumas doenças, como autoimunes e do trato gastrointestinal, por exemplo, têm prevalência maior nesse público, o que acaba tornando, sim, a expectativa de vida menor.
A independência pode ser uma realidade na vida do autista adulto?
Sim, pode ser, sim. Claro que, se a gente está falando de autismo, nós vamos ter pessoas que vão precisar de um suporte, mas, às vezes, esse suporte é apenas uma psicoterapia ou alguma medicação para um futuro mais leve. Mas, sim, autistas podem ser independentes. Um famoso é o Elon Musk, um dos homens mais ricos do mundo.
Além disso, hoje, não falamos mais em grau, falamos em nível de suporte. Porque a gente entende que um autista nível três, por exemplo, que seria o mais grave, antigamente, se ele for conduzido corretamente, se forem feitas todas as terapias e conseguir melhorar todas as questões comportamentais, pode transitar entre os níveis. Então, o paciente pode passar para o nível dois e, dependendo, até para o nível um.
É preciso continuar com o acompanhamento médico e as terapias na vida adulta? De que forma isso acontece?
Vai depender de cada pessoa, porque cada uma vai ter as suas necessidades. Ele (pessoa com autismo) deverá passar por um médico que atenda adolescentes e adultos. Esse médico pode ser clínico, psiquiatra ou um neurologista, desde que tenha conhecimento sobre o autismo.
Vai depender também de cada momento da vida desta pessoa. Vai ter momentos em que talvez precise só de uma terapia com psicólogo, talvez vá precisar de uma fonoaudióloga, talvez vá precisar de uma fisioterapia, de um terapeuta ocupacional ou de um psicopedagogo, por exemplo.
Como funciona o diagnóstico na vida adulta? Os sintomas são diferentes do público infantil?
O diagnóstico é feito de acordo com os critérios do manual de transtorno de saúde mental. São os mesmos critérios tanto para criança quanto para adulto. Só que a apresentação dos sintomas vai diferenciar um pouco. A criança autista pode, por exemplo, ficar correndo porque ela precisa estar se movimentando. Já o adulto sabe que isso não é muito legal. Então, ele vai se movimentar de outra forma. Ele pode transformar isso num movimento de pernas, de braços ou ainda ficar mexendo no cabelo. Claro que não é só isso, mas uso esse exemplo para dizer que os sintomas são os mesmos; a apresentação que vai ser um pouco diferenciada.
Qual médico deve ser pode ser procurado para o diagnóstico tardio?
Qualquer médico que tenha experiência com autismo ou que tenha conhecimento sobre. Não precisa ser um especialista.
Onde buscar ajuda
:: Sistema Único de Saúde (SUS): o Centro de Autismo, inaugurado em 2022, em Caxias do Sul, proporciona atendimento integrado através de equipe multiprofissional de saúde para crianças de um a oito anos de idade com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) e suas famílias. O acesso é via Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência.
Também são feitos encaminhamentos para o Centro de Atendimento em Saúde (CAS) e para o Centro Regional de Referência (CRR), ambos do Programa TEAcolhe, que atendem casos de TEA e também pessoas com deficiências. O acesso é via UBS de referência.
:: Clínica Jordani Mental Care: vai inaugurar, nos próximos dias, o programa Desbravamente, destinados para adolescentes e jovens de 12 a 19 anos, com foco na autonomia para a vida adulta. Os assuntos que serão abordados são inteligência emocional, nutrição, finanças e teste vocacional, em formato de grupo. O programa será realizado na Casa Terapêutica, localizada na Rua Pinheiro Machado, número 1276, Centro.