
O uso de inteligência artificial (IA) para gerar imagens no estilo do Studio Ghibli foi um dos assuntos mais comentados dos últimos dias.
Segundo o filho de Hayao Miyazaki, criador de clássicos como A Viagem de Chihiro (2003) e Meu Amigo Totoro (1995), a IA pode colocar em risco o emprego dos animadores japoneses, mas "não substituirá a genialidade do seu pai".
O avanço das ferramentas de IA, como o novo gerador de imagens do ChatGPT, tem levado à proliferação de ilustrações que imitam o estilo do estúdio, reacendendo debates sobre possíveis violações de direitos autorais.
Mudanças tecnológicas

Embora o Studio Ghibli não tenha se posicionado oficialmente sobre o uso da IA na criação de animações, Goro Miyazaki, 58 anos, acredita que a tecnologia pode um dia substituir os animadores.
— Não seria surpreendente se, daqui a dois anos, houvesse um filme feito totalmente com IA — afirmou em entrevista à AFP, dias antes de a OpenAI, empresa responsável pelo ChatGPT, lançar seu mais recente gerador de imagens
No entanto, ele pondera se o público estaria disposto a consumir esse tipo de produção.
Apesar das mudanças tecnológicas, o diretor vê um lado positivo: a possibilidade de revelar talentos inesperados.
— A IA também tem um grande potencial para revelar criadores que talvez não tivessem esse espaço antes — acrescentou.
A OpenIA, que já enfrenta processos por violação de direitos autorais, afirma que proíbe a reprodução de estilos individuais de artistas vivos, mas permite a replicação de estilos de estúdios.
Desafios da indústria
O Japão enfrenta uma escassez de profissionais qualificados na animação, em parte porque o setor exige anos de trabalho mal remunerado para aprendizado.
Além disso, Goro acredita que a geração Z, mais habituada ao digital, pode não se interessar pelo trabalho manual da animação tradicional.
— Hoje, há uma infinidade de conteúdos disponíveis para assistir a qualquer hora e em qualquer lugar. Isso torna ainda mais difícil imaginar uma carreira baseada na arte de desenhar — explicou.
Studio Ghibli
Hayao Miyazaki fundou o Studio Ghibli em 1985, ao lado de Isao Takahata, um ano após dirigir Nausicaä do Vale do Vento (1985).
Desde a morte de Takahata, em 2018, Miyazaki, agora com 84 anos, segue à frente das produções ao lado do produtor Toshio Suzuki, de 76 anos.
— Se esses dois não puderem mais fazer anime, o que acontecerá com o Ghibli? Não é como se eles pudessem ser substituídos — questiona Goro.
Apesar da idade avançada, Miyazaki conquistou seu segundo Oscar no ano passado com O Menino e a Garça (2023), possivelmente seu último longa-metragem.

"Nem tudo é doce"
Ao longo dos anos, as animações do Studio Ghibli conquistaram crianças e adultos, em parte pelo tom mais sombrio que Takahata e Miyazaki, ambos de uma geração marcada pela guerra, inseriram nas narrativas.
— Nem tudo é doce – há sempre uma amargura, um 'cheiro de morte' que torna o trabalho tão profundo — disse Goro.
Ele destaca que até Meu Amigo Totoro, conhecido pelas criaturas fofas, tem um lado assustador, pois lida com o medo da perda materna.
Já as novas gerações, que cresceram em tempos de paz, não compartilham da mesma abordagem.
— É impossível criar algo com o mesmo senso, atitude e perspectiva que a geração do meu pai tinha — afirmou.
Visão de Miyazaki sobre IA
A disseminação de imagens geradas por IA no estilo Ghibli reacendeu um vídeo de 2016, no qual Hayao Miyazaki expressa seu descontentamento com a tecnologia.
— Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida — disse o diretor no trecho retirado de um documentário.
No entanto, no contexto completo, ele estava criticando um experimento de IA que mostrava uma criatura semelhante a um zumbi, considerada por ele "extremamente desagradável".

Goro Miyazaki ingressou no Studio Ghibli em 1998 e dirigiu filmes como Contos de Terramar (2006) e Da Colina Kokuriko (2011). Além disso, supervisionou a criação do Museu Ghibli e do recém-inaugurado Parque Ghibli, no Japão.
Ele conta que, apesar de ter aprendido muito com o trabalho do pai e de Takahata, nunca se sentiu à altura do talento deles.
— Minha mãe, que também era designer, me aconselhou a não seguir essa carreira, pois é um trabalho exaustivo. Mas eu sempre quis fazer algo criativo — revelou.