
Lembrada pela família como uma pessoa alegre, batalhadora e mãe dedicada, a esteticista Katchucia Drielle Moesch Flores, 29 anos, estava voltando para o Brasil, no último domingo (23), quando sofreu um acidente de trânsito e morreu. A jovem estava dentro de um carro por aplicativo que a levava até o aeroporto no Estado de Punjabi, na Índia, quando o veículo colidiu contra um caminhão.
Nascida em São Sebastião do Caí, Katchucia morou a vida toda no bairro Ideal, em Novo Hamburgo. Colorada, ela era a filha do meio entre três irmãs.
A mãe da esteticista, Rejane Terezinha Moesch, 61 anos, acredita que a filha possa ter sido vítima de um crime. Segundo Rejane, Katchucia viajou em 9 de setembro para conhecer pessoalmente Navjot Singh, com quem se relacionava virtualmente desde 2023. O plano era voltar em dezembro, mas a filha relatou que foi forçada a ficar.
— Nos primeiros três meses, ela tinha contato com a gente todos os dias. Depois, começou a intercalar porque eles estavam cortando a internet dela, não estavam dando a senha. E daí, começaram a fazer o cárcere privado com ela. Ela não saía de casa para nada. Sempre que ia até a área da casa, tinha alguém vigiando — conta a mãe.
Rejane diz que a filha relatou que foi agredida e recebeu ameaças de morte caso não se casasse com o homem. Segundo a mãe, Katchucia se casou contra a vontade para que fosse liberada para voltar ao Brasil. Ela diz que já desconfiava da índole do homem e que havia alertado a filha.
— Desde antes, quando embarcou, eu disse para ela: "Filha, esse cara é um psicopata. Esse cara não gosta da gente. O único objetivo dele é o visto para o Brasil. E daí ele tem possibilidade de ir para outros países, que fica mais fácil para ele". Essa foi a minha visão desde o primeiro momento, só que os filhos não escutam as mães — lamenta.
Rejane conta que, durante os dois anos anos de relacionamento à distância, Katchucia fazia videochamadas diárias durante horas com Navjot. O homem havia prometido que se casaria com ela e a levaria para viajar por diferentes locais.
— Ele prometeu que ia casar com ela, mandou vários vídeos dizendo que eles iam fazer uma lua de mel depois, para várias cidades lindas, maravilhosas, que ele ia assumir os filhos dela, que não teria problema. Ele fez uma lavagem cerebral — relata.
Segundo a mãe, a jovem relatou que foi agredida física e verbalmente durante todo o tempo em que esteve na casa do homem. Katchucia contou que chegou a ser apedrejada pelo marido em uma ocasião. Rejane diz que a filha pediu ajuda à embaixada por telefone, mas teria sido informada de que nada poderia ser feito uma vez que ela era casada.
Último contato
O último contato de Rejane com a filha foi por volta das 16h de domingo. Katchucia mandou um vídeo de dentro do carro horas antes do acidente. No momento da colisão, ela estava acompanhada do marido e do irmão dele, que saíram ilesos.
A mãe soube da tragédia após o marido da filha entrar em contato com ela. Ela diz que não acreditou e que o homem encaminhou a ela imagens do corpo da filha em meio às ferragens.
— Eles tiraram um pedaço de mim, só isso. Ela era uma batalhadora, uma mulher maravilhosa que cuidava dos filhos como uma leoa, protegia, conversava, explicava. Ela sempre quis construir uma família, ter um lar, um pai para os filhos, essas coisas. Ela foi em busca disso, mas infelizmente se apresentou de outra forma — conta emocionada.
Katchucia deixou quatro filhos. O mais velho é um adolescente de 14 anos, além de uma menina de 11, que é autista, um menino de cinco e uma menina de apenas dois anos. Todos estão na casa da avó. Segundo ela, apenas o adolescente sabe da morte da mãe.
Traslado do corpo
Rejane ainda não sabe como vai trazer o corpo da filha de volta a Novo Hamburgo para sepultá-la junto à família. Ela também não sabe quanto precisará desembolsar para viabilizar a despedida.
Eu preciso que meus netos tenham essa despedida da minha filha. Eles têm esse direito, porque é um ciclo que se encerra. E se eles não fizerem essa despedida, vão continuar com a ideia de que a mãe deles está voltando.
REJANE TEREZINHA MOESCH, 61 ANOS
Mãe de Katchucia
Procurado pela reportagem, o Ministério das Relações Exteriores enviou uma nota, na qual diz que "que a Embaixada do Brasil em Nova Délhi está ciente do caso e permanece em contato com os familiares da brasileira, a quem presta assistência consular, e com as autoridades locais." O texto diz ainda que "o traslado dos restos mortais de brasileiros falecidos no exterior é decisão da família e não pode ser custeado com recursos públicos, à luz do § 1º do artigo 257 do decreto 9.199/2017".
Nota do Itamaraty
A Embaixada do Brasil em Nova Délhi está ciente do caso e permanece em contato com os familiares da brasileira, a quem presta assistência consular, e com as autoridades locais.
Informa-se que, em caso de falecimento de cidadão brasileiro no exterior, as Embaixadas e Consulados brasileiros podem prestar orientações gerais aos familiares, apoiar seus contatos com o governo local e cuidar da expedição de documentos, como o atestado consular de óbito, tão logo terminem os trâmites obrigatórios realizados pelas autoridades locais.
O traslado dos restos mortais de brasileiros falecidos no exterior é decisão da família e não pode ser custeado com recursos públicos, à luz do § 1º do artigo 257 do decreto 9.199/2017.
Em atendimento ao direito à privacidade e em observância ao disposto na Lei de Acesso à Informação e no decreto 7.724/2012, o Ministério das Relações Exteriores não fornece informações sobre casos individuais de assistência a cidadãos brasileiros.