Vinte e seis anos após sua captura pelos serviços secretos turcos, Abdullah Öcalan, líder histórico do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), continua sendo, de sua cela na prisão, o líder visível da causa curda na Turquia.
Inimigo público número um de Ancara, detido em 15 de fevereiro de 1999 no Quênia após uma feroz perseguição e, desde então, preso em confinamento solitário na ilha-prisão de Imrali, ao largo de Istambul, Öcalan encerrou oficialmente a luta armada nesta quinta-feira (27).
"Todos os grupos devem depor as armas e o PKK deve se dissolver", ordenou ele em uma declaração lida por parlamentares curdos visitantes, especificando que ele "assumiu" essa decisão histórica.
Desde o outono, com a abertura do diálogo iniciado por Ancara, ele garantiu que poderia levar a questão curda "do reino da violência para o reino da política", afirmando estar "pronto para tomar as medidas necessárias".
Apesar do confinamento e do silêncio, o homem que é chamado de "Apo" ou "Serok" ("Tio" e "Chefe" em curdo) continua sendo, aos quase 76 anos de idade, o emblema da causa curda na Turquia, onde o conflito entre o PKK e o Estado deixou mais de 40 mil mortos desde 1984.
Sua influência continua viva também na Europa, onde os refugiados curdos agitam regularmente bandeiras e faixas com seu rosto.
Nascido em 4 de abril de 1949 em uma família de camponeses no vilarejo de Ömerli, na fronteira com a Síria, Abdullah Öcalan envolveu-se com a extrema esquerda durante os estudos de ciências políticas em Ancara, o que o levou à primeira prisão em 1972.
Em 1978, ele fundou o PKK marxista-leninista. Dois anos depois, exilou-se, principalmente em Damasco ou na planície de Bekaa, no Líbano, controlada pela Síria, onde montou seu quartel-general.
- Ator de referência -
Em agosto de 1984, "Apo" optou pela luta armada para conseguir a criação de um estado curdo.
Ancara respondeu aos ataques do PKK com uma repressão feroz. O sudeste do país gradualmente entrou em um estado de guerra civil quase total, com o grupo rotulado como "terrorista" pela Turquia, pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Forçado em 1998 a deixar a Síria sob pressão turca, ele vagou pela Europa antes de ser capturado pelos serviços secretos turcos do lado de fora da embaixada grega em Nairóbi, no Quênia.
De volta à Turquia, ele foi condenado à morte, que foi comutada para prisão perpétua com a abolição da pena de morte em 2002.
Ancara então pensou que, ao prendê-lo, havia decapitado o PKK. Mas, mesmo isolado, "Apo" continua a liderar o movimento, dando instruções aos visitantes, embora o comandante militar, refugiado no Iraque, tenha escapado dele.
Foi ele quem, em duas ocasiões, no início dos anos 2000 e depois em 2013, ordenou um cessar-fogo unilateral.
Ele também ordenou que o movimento renunciasse à ideia de um estado curdo independente e defendesse a autonomia política dentro da Turquia, onde os curdos representam cerca de um quinto da população de 85 milhões de habitantes.
Em 2015, após dois anos de apaziguamento e negociações com Ancara sobre direitos culturais e representação política dos curdos, o conflito recomeçou no sudeste da Turquia, de maioria curda, devastando especialmente a antiga cidade de Diyarbakir.
Öcalan lamentou no ano seguinte que "tantas pessoas morreram", especialmente jovens inexperientes, em "uma guerra na qual nenhum lado pode vencer", de acordo com declarações relatadas por seu irmão Mehmet.
Desde então, "a sociedade curda se diversificou e o movimento político e jurídico curdo se afirmou como um ator", enfatiza Hamit Bozarslan, diretor da Escola de Estudos Superiores em Ciências Sociais, em Paris.
"Mas, para grande parte dos curdos, ele é o ator de referência, é o 'tio' que não apenas personifica a causa, mas toda a nação curda", enfatiza.
* AFP