O avião da Voepass que caiu em Vinhedo, no dia 9 de agosto, enfrentou formação de gelo durante boa parte da viagem e os pilotos relataram que havia problema no sistema que deveria remover o gelo das asas.
As informações foram divulgadas pela Força Aérea Brasileira (FAB) nesta sexta-feira (6), quando foi apresentado um relatório preliminar da investigação do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) a respeito do acidente.
Segundo a investigação da FAB, alguns minutos após a decolagem, ainda quando o avião subia para atingir a altura prevista no plano de voo, um sensor indicou, por meio de luz no painel dos pilotos, que havia formação de gelo junto às asas. O sistema que deveria remover o gelo foi acionado, mas, em seguida, a gravação de voz da cabine indica que um dos tripulantes comentou sobre mau funcionamento deste equipamento. Ele voltaria a ser acionado durante o voo, mas a formação de gelo foi enfrentada durante grande parte da viagem.
O chefe do Cenipa, brigadeiro Marcelo Moreno, destacou que o órgão não avalia, ainda, que esta foi a causa do acidente, porque este suposto problema não foi verificado no flight data recorder (FDR), que registra ocorrências técnicas no voo.
— Não conseguimos, neste momento, confirmar através do FDR que o sistema não estivesse funcionando — afirmou, destacando que a informação vem somente deste comentário de um tripulante.
O relatório preliminar do Cenipa registra que "durante o voo em rota, após encontrar condições de formação de gelo, houve a perda de controle da aeronave seguida do impacto contra o solo". O órgão afirma que apresentou hoje somente dados factuais, sem análise, e que ainda é cedo para dizer qual a principal hipótese para a causa do acidente, ou mesmo descartar qualquer possibilidade.
— Neste momento, qualquer resposta simples, para um problema tão complexo, seria precipitada — afirmou o comandante do Cenipa.
O chefe da divisão de investigação do Cenipa, coronel aviador Carlos Henrique Baldin, projetou que é provável que a investigação se estenda por mais de um ano, antes de apresentar um relatório definitivo:
— Este acidente não deveria ter acontecido, não nas condições em que a aeronave estava voando. A gente ainda tem um logo processo pela frente, de investigação.
Manutenção em dia e tripulação capacitada
Encarregado pela investigação do acidente da Voepass no Cenipa, o tenente-coronel aviador Paulo Mendes Fróes apresentou dados sobre o avião e sua tripulação, o plano de voo e as condições meteorológicas.
Sobre a aeronave, destacou que os "registros técnicos de manutenção estavam atualizados". Ou seja, a manutenção estava em dia e o avião tinha a "certificação de aeronavegabilidade válida".
— Aeronave estava, sim, aeronavegável, de acordo com padrões da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) — afirmou.
Além disso, a aeronave ATR 72-500 da Voepass "era certificada para voos em condições de gelo".
A respeito da tripulação, Fróes destacou que piloto e copiloto tinham experiência e formação necessária, e os certificados médicos, inclusive das comissárias, estavam em vigor.
— Pilotos tinham, também, treinamento específico para voo em situações de gelo — declarou o tenente-coronel aviador.
Sobre as condições meteorológicas na data do ocorrido, Fróes destacou que havia, antes da decolagem e à disposição do piloto por meio da internet, previsão de gelo severo na rota e de formação de gelo entre os níveis 12 mil e 21 mil pés. O plano de voo estabelecia que o avião navegaria a 17 mil pés.
O chefe do Cenipa, brigadeiro Marcelo Moreno, destacou que o trabalho do órgão é "investigação sem fins punitivos buscando entregar segurança no transporte aéreo da nossa sociedade". O apontamento e eventual responsabilização de culpados é função da polícia, destacou o brigadeiro. O acidente com o avião da Voepass também é investigado pela Polícia Civil de São Paulo, em inquérito que corre sob sigilo.
— A gente não consegue mudar o passado, mas aqui a gente está tentando estudar e coletar o máximo de informações para tentar mudar o futuro — disse o coronel aviador Carlos Henrique Baldin, chefe de investigação do Cenipa.
No começo da coletiva, o comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do ar Marcelo Damasceno, destacou que antes de serem divulgadas à imprensa, as informações do Cenipa foram repassadas a familiares das vítimas.
Um dos itens fundamentais na investigação da queda do aeronave é a gravação das caixas-pretas. O Cenipa obteve os equipamentos do ATR 72-500 e extraiu registros de "gritos" e falas do copiloto sobre "dar potência" à aeronave.
Problema em equipamento de climatização
O avião que caiu em Vinhedo tinha um equipamento, chamado "pack", inoperante. Era o pack do motor esquerdo. A aeronave tem dois destes e a inoperância de um não impede o voo. Segundo Fróes, este dispositivo é responsável pela pressurização — controle do fluxo de ar para dentro da cabine — e pela climatização da aeronave.
Os manuais de aviação preveem que é possível voar com apenas um pack, mas, para isto, é preciso navegar a altura máxima de 17 mil pés e calcular o combustível para a viagem como se fosse a 10 mil pés. Estas duas precauções foram tomadas no voo da Voepass que caiu, segundo o investigador do Cenipa.
O tenente-coronel aviador também destacou que o problema nos packs não tem qualquer relação com a formação de gelo na aeronave ou com os equipamentos de segurança para estas situações.
Relembre o caso
A aeronave modelo ATR 72-500, operada pela companhia Voepass, caiu em uma área residencial do município de Vinhedo, interior de São Paulo, no começo da tarde de 9 de agosto. O voo havia partido de Cascavel (PR), com destino a Guarulhos (SP).
Havia 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes. Todos morreram na queda. Quatro das vítimas eram nascidas no Rio Grande do Sul.
A empresa diz que a aeronave tinha passado por manutenção no dia anterior ao acidente, sem apresentar qualquer problema.
A queda do avião da Voepass é o quinto maior acidente em número de vítimas da aviação brasileira.