
Para se defender das críticas pelo avanço do tráfico nos morros cariocas, quando governava o Rio de Janeiro, Leonel Brizola oferecia um argumento simples para um tema tão complexo. Ele dizia que era moleza acabar com a organização criminosa já cheia de ramificações. Bastava a Zona Sul não consumir. Se os abastados dessem um não rotundo às drogas, um não rotundo como o que ele pediu em 1989 para Fernando Collor, sem ser atendido pelos eleitores, o mal seria decepado pela raiz.
Sem clientes para fumar maconha ou se tornar usuário de cocaína, à época as drogas em voga, o mercado se asfixiaria aos poucos, sufocando os traficantes. Sem comprador, restaria ao vendedor mudar de ramo. A solução de Brizola encerrava uma ironia ácida, uma de suas marcas registradas. Sugeria, com razão, que o tráfico não é exclusividade dos pobres. A polícia não invade uma festa de cobertura na Vieira Souto regada a drogas com o mesmo despudor adotado em batidas nas favelas. Sobe o morro fácil, mas não o elevador do asfalto. Lembrei da frase de Brizola a respeito da queda de Felipão, no Grêmio.
Felipão não se importou em abandonar o campo diante do Veranópolis, dando as costas e criticando publicamente seus jogadores com o gesto. Eles perdem, eu ganho. Qualquer outro que cometesse tal desatino seria demitido na hora, mas ele não é qualquer outro. Felipão é Felipão. O técnico mais importante do Brasil nos últimos 20 anos. São os tais supertécnicos. A aura de salvador, o currículo estrelado e o salário gordo lhe dão a falsa impressão de que podem extrapolar seus limites de atuação. Sentem-se no direito de dar pitaco até nas dívidas do clube. Com o tempo, claro, perdem o foco e criam áreas de atrito, na medida em que desrespeitam hierarquias internas, para cima e para baixo. Foi o que aconteceu com Felipão.
Mas assim como o jogador ruim não tem culpa de ser escalado, também o supertécnico só manda e desmanda por que deixam. E quem deixa? Primeiro, os dirigentes preguiçosos. É mais fácil entregar a chave do vestiário a um cacique, entregando-lhe todos os tambores da tribo. Depois, a imprensa. Eu tenho culpa, portanto, ao escrever demais sobre eles. A cobertura diária centra tudo no treinador. Se ganha, é sua mão divina. Se perder duas seguidas, está sob pressão no jogo seguinte. E se você, que é torcedor, agora está me elogiando por não ser corporativista ao propor uma reflexão sobre a cobertura jornalística acerca do trabalho do técnico, não festeje muito.
O torcedor é um dos maiores culpados pela existência do supertécnico. É o primeiro a condenar o técnico no estádio ou nas redes sociais, em muitos casos com xingamentos impublicáveis. Assim, confere importância deformada aos homens da casamata. Se a culpa é toda dele quando vai mal, então é toda sua quando vai bem. Um superhomem, portanto. Nós é que criamos o supertécnico brasileiro. Nós é que damos suporte aos seus salários lunáticos de meio milhão. Sem tantos elogios e críticas ao treinador, ele voltaria a ser uma peça importante, mas não um salvador da pátria. Se não consumirmos tanto noticiário sobre técnico, eles perderão a vitamina que os torna megacelebridades.
É só não consumir, como ensinava Brizola.
*ZHESPORTES