
O ímpeto do presidente americano Donald Trump em aplicar tarifas de importação a países como China, México e Canadá, seguido por medidas recíprocas desses governos, pode abrir mercado para itens de exportação do agronegócio gaúcho a exemplo de soja, carne, milho e arroz.
A briga tarifária tende ainda a valorizar os produtos brasileiros, na avaliação de especialistas consultados por Zero Hora. Mas a nova política americana e as restrições ao livre comércio também trazem riscos, como uma redução nas negociações internacionais com reflexos sobre o crescimento econômico global — o que, mais adiante, poderia afetar indiretamente o Brasil e o Estado.
Na avaliação do economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, as medidas divulgadas devem trazer "uma vantagem importante para os produtos brasileiros". Mas faz ressalvas:
— Diferentemente da outra vez (primeiro mandato de Trump), a China, desta vez, estava preparada. Ano passado, elevaram bastante seus estoques e importaram muito mais do Brasil do que dos EUA, de modo que as medidas não fossem tão impactantes.
Como Trump apoiará os produtores americanos com aumento de subsídios, isso prejudica os preços internacionais, empurrando para baixo. Isso é ruim para o Brasil. Em resumo: é bom para nós, mas não tanto como da outra vez.
ANTÔNIO DA LUZ
Economista-chefe da Farsul
As medidas de retaliação anunciadas pela China, que também aumentaram as barreiras a artigos provenientes dos EUA, favorecem que itens produzidos no Estado ganhem terreno, como soja e carnes.
No caso do milho e, mais especificamente, do arroz, o cenário ainda depende de como o México vai reagir às iniciativas americanas.
— Estamos com expectativa para ver o que o México deve anunciar, pois são grandes importadores de milho e arroz. O arroz não depende da China, mas do México, que deve apresentar suas sanções no domingo (9) — complementa Luz.
O economista da Farsul lembra que o Estado enfrenta o risco de grandes perdas na colheita de soja por conta da estiagem que afeta 40% dos municípios até agora. Nesse caso, ao menos uma parte do prejuízo seria compensada por preços internacionais mais elevados.
De acordo com o painel estatístico de exportações mantido pelo Departamento de Economia e Estatística do governo estadual, no ano passado os gaúchos somaram R$ 21,9 bilhões em exportações. Desse montante, a soja responde por quase 30% das vendas. A China se manteve como o grande destino dos produtos gaúchos, respondendo por cerca de um quarto dos recursos (veja detalhes no gráfico abaixo).
Dúvidas sobre resultado final para o Brasil
Professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin acredita haver "controvérsias" sobre o resultado final da batalha tarifária sobre o Brasil como um todo, já que há setores da economia nacional também sob a mira de Trump, a exemplo do aço.
É claro que setores que estão sendo sobretaxados, como aço e alumínio, se nada for mudado, vão sofrer. Por outro lado, como a China já retaliou taxando produtos alimentícios americanos, entre os quais milho e soja, e sendo que o Brasil é um grande exportador de soja, a expectativa é de que isso possa elevar o preço desses produtos, o que por sua vez favorece o Brasil.
MAURO ROCHLIN
Professor de Economia da FGV
Rochlin acrescenta que, portanto, é cedo ainda para dizer se o Brasil será favorecido ou prejudicado:
— A experiência mostra, com base no primeiro governo Trump, em 2018, quando também foram adotadas medidas legislativas, que foi uma reação favorável (ao Brasil).
O economista da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Marcelo Portugal também crê que o desfecho da contenda alfandegária sobre o Brasil ainda é incerto.
— Há um impacto positivo, pois o Brasil pode tomar o mercado dos produtos norte-americanos em países que retaliarem a elevação de tarifas do Trump. O exemplo mais claro é a China. O governo chinês já anunciou tarifas de retaliação sobre grãos e carne suína e bovina. Por outro lado, há também impactos negativos, pois somos grandes exportadores de aço. Uma tarifa sobre o aço, a vigorar em 2 de abril, pode reduzir a competitividade do aço brasileiro — opina Portugal.
Procurada por Zero Hora, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) informou por sua assessoria de comunicação que não se manifestaria no momento sobre prováveis impactos no setor industrial por ainda ser "muito cedo" para quaisquer previsões.
Rochlin observa que, em termos mais amplos, há ainda o temor de um freio no comércio global capaz de reduzir o crescimento econômico em prazo mais longo.
— As tarifas alfandegárias representam, sem dúvida nenhuma, um freio no comércio internacional porque os produtos negociados vão se tornar mais caros, e isso tende a diminuir o consumo deles nos países de destino. Portanto, se espera uma diminuição no comércio, o que, por sua vez, pode reduzir o crescimento econômico para todo lado — alerta.
Especialistas não temem pressão inflacionária
Antônio da Luz não acredita que o estímulo à exportação de itens agrícolas para países como a China vá gerar um aumento da inflação ao consumidor no Brasil, mesmo que resulte em crescimento de demanda e elevação nos preços internacionais.
— A soja terminou o ano (com preço) abaixo do que no final de 2023, mas o óleo de soja subiu 27%. O arroz está 22% abaixo para o produtor, mas 6% acima para o consumidor em 13 meses. Preço ao produtor é uma coisa, ao consumidor é outra. Inflação de alimentos é culpa do desequilíbrio macroeconômico — diz o economista da Farsul.
Marcelo Portugal entende que um provável aumento das exportações brasileiras para um país do tamanho da China poderia "reduzir temporariamente a oferta doméstica e subir os preços". Mas avalia que essa eventual pressão inflacionária seria breve:
— O efeito final é que a gente acabaria produzindo mais carne, por exemplo, para abastecer ambos os mercados, o doméstico e o externo.
Presidente do Conselho de Administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), Arthur Pimentel sustenta que a melhor saída para o Brasil é aproveitar as brechas provocadas pela imposição mútua de tarifas para ampliar suas exportações e, nos casos em que sofrer taxação de seus próprios itens de exportação, buscar a negociação com os americanos.
A gente tem grande chance de abrir novas oportunidades comerciais. Sempre digo que o Brasil não é o alvo dessa nova política americana. Tenho informações, inclusive, de que o governo americano está montando uma missão comercial para discutir os acordos com o Brasil. Temos de sentar com eles, discutir, negociar. Sou otimista.
ARTHUR PIMENTEL
Presidente do Conselho de Administração da Associação de Comércio Exterior do Brasil