
Em março de 2024, Oruam chamou a atenção até de quem não conhece o mundo do trap, subgênero do rap do qual o artista é uma das referências no país. O motivo? Ele subiu ao palco do festival Lollapalooza vestindo uma camiseta com a foto do traficante Marcinho VP e a palavra "liberdade". Virou um dos assuntos mais comentados das redes sociais e nos jornais nacionais.
Apontado como um dos líderes do Comando Vermelho, Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, está preso desde 1996, condenado a 44 anos de prisão, por tráfico de drogas e homicídios. Ele é pai de Oruam — nome artístico de Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, que completa 24 anos no próximo sábado (1º).
À época, diante da repercussão negativa do caso, o cantor explicou em um post nas redes sociais que sua manifestação no festival foi "apenas o lamento de um filho que sente falta do pai". Segundo o rapper, VP "errou, mas está pagando pelos seus erros e com sobra". Oruam ainda escreveu: "Não tentem tirar de uma pessoa o direito de reivindicar condições melhores para o seu pai, e nem sequer vê-lo em liberdade".
Apesar de ter tomado grandes proporções, esta não foi a única polêmica na qual o artista se envolveu. Nesta quarta-feira (26), por exemplo, ele foi preso em flagrante — e solto poucas horas depois — por abrigar um foragido da Justiça em sua residência, no Rio de Janeiro (RJ). Na ocasião, a polícia cumpria mandados de busca e apreensão em investigação sobre disparos de arma de fogo em um condomínio em Igaratá, em São Paulo, no fim do ano passado.
A ação foi deflagrada pela Delegacia de Repressão a Entorpecente (DRE). Além de Oruam, Márcia Nepomuceno, mãe do rapper, também foi alvo da operação. Uma pistola calibre nove milímetros foi apreendida na casa do artista. Não há informação se a arma encontrada é a mesma utilizada em São Paulo.
Duas prisões no mesmo mês
Na última quinta-feira (20), Oruam foi preso, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Nas redes sociais, circularam vídeos do cantor sendo encaminhado à delegacia após ser parado por policiais por realizar manobras arriscadas de carro na rua, conhecidas como "cavalo de pau". Oruam foi liberado após pagar a fiança de R$ 60 mil.
As autoridades acreditam que o cantor realizou o crime propositalmente em frente a uma blitz com o objetivo de chamar atenção para si — uma espécie de "estratégia de marketing" para o seu primeiro álbum, Liberdade, lançado horas após a prisão. A ação foi filmada pela equipe do cantor.
PL Anti-Oruam
O projeto de lei (PL) conhecido como Lei Anti-Oruam busca impedir que artistas cujas letras abordam temas relacionados ao crime organizado e ao consumo de drogas se apresentem em eventos financiados pelo poder público.
A proposta, que ganhou até mesmo um site, incita os vereadores a promoverem "a maior guerra contra o crime organizado". De acordo com a página, o PL visa “proteger crianças e adolescentes da influência negativa que destrói vidas".
Com versões apresentadas em diversas cidades, a proposta ganhou visibilidade após a vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), de São Paulo, apresentar o projeto em sua cidade, focando na figura do rapper Oruam. Ela argumenta que as letras do artista "abriram as porteiras" para que mais músicos exaltassem criminosos em suas músicas.
Além do Rio e São Paulo, outras capitais, como Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Vitória, João Pessoa e Porto Alegre, já adotaram projetos semelhantes, e a discussão está se espalhando pelo país. Na capital gaúcha, o projeto de lei foi protocolado pela vereadora Fernanda Barth (PL).
A medida também chegou ao Congresso, apresentada pelo deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) e pelo senador Cleitinho (Republicanos-MG), ambos afirmando que Oruam se tornou um símbolo de artistas que "promovem o crime".
O PL gerou reação no meio artístico e entre ativistas culturais. Parlamentares da oposição classificam a medida como uma "retaliação" contra expressões culturais da periferia, como o rap e o funk. Opositores também afirmam que a proposta viola a liberdade de expressão e pode abrir um precedente para a censura cultural.
Em suas redes sociais, Oruam afirmou que os parlamentares encontraram a "oportunidade perfeita" para criminalizar o funk, ao verem um filho de traficante fazer sucesso. "Virei pauta política, mas o que vocês não entendem é que a Lei Anti-Oruam não ataca só o Oruam, mas todos", escreveu no X.
Elias Maluco, o “tio”
Oruam tem tatuagens no corpo com os rostos do pai, Marcinho VP, e Elias Maluco, a quem chama de "tio", e que foi condenado pela morte do jornalista Tim Lopes, em 2002. Na época, o repórter investigava abusos sexuais de menores de idade e tráfico de drogas na Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Ele foi sequestrado pela facção comandada por Elias, torturado e morto.
Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, morreu no presídio federal de Catanduvas, no Paraná, em 2020. O corpo foi encontrado na própria cela, onde ele cumpria pena havia 13 anos. Em vídeo postado nas redes sociais, no ano passado, Oruam mostrou suas tatuagens.
— Olha o chefe, meu chefe, Marcinho: esse daqui é o meu pai — apontou Oruam, que em seguida mostrou as tatuagens da barriga: — Esse daqui é o meu tio, Elias Maluco, e esse daqui é o meu primo Raul (filho de Elias).
Elias Maluco foi comparsa de Marcinho VP. No entanto, meses antes de morrer, uma desavença entre os dois fez com que Elias perdesse espaço dentro do Comando Vermelho.
Mãe presa
Oruam tem quatro irmãos — sendo uma delas, a Débora Gama, cantora gospel —, que são frutos do casamento de Marcinho VP com Marcia Gama, que também esteve presa em 2010, acusada de lavar dinheiro para o tráfico a mando de seu marido. A mãe de Oruam, hoje, apresenta-se como empreendedora.
Durante a prisão de Márcia, quando passou cinco meses, Oruam tinha 9 anos na época. Evangélica, ela credita a Deus a "ajuda na criação dos filhos". A matriarca utilizou sua experiência na criação dos filhos para começar a empreender.
Marcia se tornou a primeira "personal wash" do Brasil. De tanto lavar os pares de tênis de seus filhos, ela criou um método para deixar os calçados sempre limpos. E isso acabou viralizando em suas redes sociais. Enxergando o nicho, ela desenvolveu esta nova profissão. Além da empresa, a esposa de Marcinho VP também administra uma loja de roupas.
Ostentação
Oruam está entre os artistas mais ouvidos do país nas plataformas de streaming, acumulando, apenas no Spotify, 13,5 milhões de plays mensais. No Instagram, o cantor conta com 9 milhões de seguidores e, por lá, compartilha vídeos e fotos de uma vida marcada pela ostentação, com carros caros, viagens e até um gato avaliado em R$ 100 mil.
O artista foi criado ao lado dos irmãos no Complexo do Alemão, comunidade no Rio de Janeiro. Há cinco anos, ele namora com Fernanda Valença, estudante de veterinária e influenciadora digital. O casal se conheceu nas redes sociais e, juntos, compartilham momentos de luxo no dia a dia. O artista pediu a companheira em noivado em Paris.