A rejeição de Martin Scorsese aos filmes da Marvel ao afirmar que "não são cinema", dividiu Hollywood, os espectadores e os fãs, causando reações que variam de apoio incondicional a acusações de hipocrisia e elitismo.
O diretor vencedor do Oscar escreveu nesta semana uma coluna de opinião no jornal americano The New York Times, na qual argumentou que os filmes de super-heróis de grande sucesso não possuem a sensação de risco, mistério e complexidade de personagens que são vitais para a "arte do cinema".
"Os filmes da Marvel são o resultado de pesquisas de mercado, testes com o público, para serem examinados, modificados, revestidos e remodelados até que estejam prontos para o consumo", escreveu o diretor de Os Bons Companheiros.
"Eles carecem de algo essencial sobre o cinema: a visão unificadora de um artista individual", acrescentou Scorsese, alimentando a polêmica que iniciou em entrevista para uma revista no mês passado.
A favor de Scorsese
Famosos como Francis Ford Coppola e Ken Loach apoiaram Scorsese. Coppola até descreveu a lucrativa franquia como "insignificante". Alguns dos principais críticos de Hollywood também apoiaram a posição do cineasta. "Scorsese é basicamente um climatologista de filmes, sinalizando uma mudança sinistra que todos podemos ver com nossos próprios olhos", tuitou David Ehrlich, crítico de cinema de Indiewire.
No entanto, a rejeição da franquia mais importante do cinema atual provocou um debate em Hollywood sobre o que é "arte" no gênero e quem pode defini-la, principalmente porque Scorsese admitiu que "tentou ver apenas alguns" filmes da Marvel.
— Não se pode descartar todo um gênero como não cinematográfico sem assistir aos filmes — rebateu Tom Nunan, produtor ganhador de um Oscar e professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), referindo-se à rejeição também sofrida por sucessos como Tubarão e Guerra nas Estrelas por parte de alguns cineastas.
— Mas ninguém teve a audácia de acusar os filmes de grande sucesso de não serem cinema — afirmou.
Em resposta a Scorsese
Bog Iger, CEO da Disney, proprietária da Marvel, disse no mês passado que os comentários de Scorsese eram "muito desrespeitosos para com todas as pessoas que trabalharam nesses filmes".
— Ninguém que assistiu a um filme da Marvel pode fazer essa afirmação — acrescentou Iger, posteriormente em declarações à BBC.
Natalie Portman, que já apareceu em vários filmes da Marvel e estrelará o próximo filme de Thor, disse ao The Hollywood Reporter que "não há uma forma única de fazer arte".
Um exército de fãs obcecados pela Marvel extravasou sua fúria nas redes sociais com inúmeros tuítes que chamavam o cineasta de elitista. Já o professor da Universidade do Sul da Califórnia, Gene Del Vecchio, considerou a posição de Scorsese a "reação da velha escola de Hollywood".
— Os cineastas de hoje mudaram, a arte se expandiu — afirmou Del Vecchio, que acredita que os gostos do público se expandiram e que gêneros como ficção científica e fantasia são mais aceitos nos dias atuais. Mas a velha guarda tem uma visão muito mais restrita da arte — disse ele à AFP.
Não ajuda na polêmica a estreia de O Irlandês, o drama gangster de 160 milhões de dólares de Scorsese para a Netflix. Em seu editorial, o diretor afirmou que sua posição sobre a Marvel era importante porque as produções de super-heróis estavam deixando os verdadeiros cineastas de fora dos cinemas.
No entanto, O Irlandês estará em cartaz nos Estados Unidos por apenas 26 dias, um tempo relativamente curto antes de estar disponível exclusivamente pela plataforma de streaming. Em comparação, Vingadores: Ultimato permaneceu em cartaz por quatro meses após seu lançamento.
— Gostaria que o filme fosse exibido em telas maiores por mais tempo? Claro que sim —disse o cineasta, uma posição que Tom Nunan chamou de "hipócrita".
— Quando foi que ele se tornou o Deus do cinema? Ele tem negócios com a mesma empresa que muitas pessoas acusam de estar destruindo o cinema — arrematou o produtor.