Quem trafega pela BR-101, no litoral norte gaúcho, pode notar a presença de inúmeros trechos repletos de plantações de bananas. Há áreas em que os olhos se perdem entre incontáveis bananeiras que contornam a rodovia entre os morros.
Conforme dados da Emater-RS, o Litoral Norte é responsável por 95% da produção do fruto no Rio Grande do Sul. Quatro municípios — Dom Pedro de Alcântara, Mampituba, Morrinhos do Sul e Três Cachoeiras — respondem por 75% dessa produção.
Para se ter uma ideia da importância do produto para estas localidades, a banana corresponde a 90% da atividade econômica.
A reportagem de Zero Hora visitou a propriedade de uma família no Arroio dos Mengue, em Dom Pedro de Alcântara, que cultiva a fruta há 14 anos. Liderada pelo agricultor Fernando Cardoso, 36 anos, a produção é inteiramente familiar, com auxílio de seu pai, irmão e sua mãe.
— Isso aqui era uma pobreza antes da banana. A economia melhorou no município depois dela. A gente trabalhava com cana de açúcar e amendoim. As vendas baixaram, então começamos a investir na banana — conta Fernando. — A gente via outros vizinhos indo bem. E desde então também alavancamos, conseguimos comprar trator novo, construir nossa casa. Antes, era difícil a vida aqui. E agora entra dinheiro o ano inteiro.
Por que os cachos são ensacados
A agricultura familiar não é prática isolada dos Cardoso. Segundo a Emater, a maior parte dos produtores costuma utilizar esse método na região, muito por conta da falta de mão de obra. Além disso, o trabalho é majoritariamente manual, com auxílio de utensílios.
A banana cultivada nos municípios do litoral gaúcho varia entre os tipos caturra e prata. Um dos processos comuns que precisam ser feitos manualmente pelos produtores é ensacar os cachos.
Com a ajuda de uma ferramenta, eles cobrem um por um para proteger de variações do clima, como ventos e geada, além de aumentar a velocidade do crescimento do fruto ao manter o cacho aquecido. No inverno, eles chegam a ficar até sete meses ensacados. No verão, esse tempo diminui para 50 dias.
A geada, aliás, é o principal motivo para que os produtores tenham buscado os morros do litoral para plantar. Isso porque, nos invernos rigorosos, é mais comum que o fenômeno atinja áreas rasteiras, poupando os pontos elevados.
Por outro lado, o calor também prejudica a colheita, pois acelera demais o crescimento. Mais do que isso: afeta a longevidade da fruta, que pode estragar mais rápido na mesa do consumidor.

Boa expectativa
Apesar da safra principal ser no período de verão, a banana é um fruto de ciclo contínuo, que pode ser colhido o ano inteiro. A diferença está na produtividade: enquanto no verão a família de Fernando colhe cachos até duas vezes por semana, em outras estações o trabalho ocorre, em média, a cada 15 dias.
Fernando explica que, assim como a geada, o vento forte e a chuva afetam essa produtividade ao longo do ano. No entanto, caso haja uma baixa, o preço se eleva, compensando as perdas.
O período chuvoso do ano passado prejudicou o trabalho dos produtores, conforme a Emater-RS. No entanto, com o tempo mais seco, a expectativa é de uma melhora na produtividade neste ano. Tatiane Vahl Bohrer, engenheira agrônoma do escritório da Emater em Dom Pedro de Alcântara, analisa:
— Houve uma perda de produtividade por causa do excesso de chuva. Agora, poderemos ter problemas com a estiagem. A banana não sente tanto o efeito desse fenômeno, mas precisaria de mais chuva do que se tem. Porém, no geral, mesmo com a seca, a gente espera uma melhora de 20% na comparação com o ano passado.
A questão da mão de obra

Apesar da importância do cultivo de banana para a economia de Dom Pedro de Alcântara, não há mão de obra disponível. O baixo interesse dos trabalhadores por esse tipo de atividade pode ser explicado pelas dificuldades que lhe são impostas:
— É um serviço pesado. A colheita é toda manual. A maioria das plantações são em morros e ainda com pedras no solo. Em algumas, é preciso andar engatinhando, desviando das pedras com um cacho pesado nas costas e em terreno íngreme. Isso sem falar que tem que cuidar cobras e aranhas — explica Tatiane.
Fernando também aponta que, para os agricultores, trazer funcionários não chega a ser viável economicamente:
— Há alguns que contratam, assinam carteira, colocam empregados. Mas acaba que não compensa, torna-se caro para o produtor.
Mais doçura, menos agrotóxicos
Uma das principais características da banana produzida no Rio Grande do Sul está no sabor, que costuma ser mais doce. Isso se deve à questão do tempo mais longo de produção até a colheita, que permite uma maturação mais lenta da fruta, diferente de outros Estados brasileiros.
Outro fator apontado pelos agricultores é o menor índice de agrotóxicos. Enquanto fora do Estado há uma média de 14 aplicações ao ano nas plantações, o RS tem cerca de quatro, e em doses menores. Fernando explica:
— No verão, a gente faz um tratamento contra fungos. Mas é muito menos veneno porque no inverno a praga não consegue atingir o fruto devido à baixa temperatura, que é algo que não se tem em outros Estados.

Bananas prata e caturra
Os tipos de banana produzidos no Litoral Norte são também os mais comuns na mesa dos gaúchos: prata e caturra. Há algumas diferenças entre elas. A caturra é maior, mais doce e pode ser consumida mais verde. Também é mais barata, mas dura menos. Já a banana prata é menor, tem um custo maior e é consumida madura, mas dura mais.
A produção varia em cada propriedade. Na de Fernando, são cerca de 15 toneladas de banana prata plantadas por hectare, enquanto a banana caturra soma de 35 a 45 hectares.
Outra característica que chama a atenção visualmente é a altura das bananeiras. Em alguns casos, elas podem chegar a 2,5 metros. Isso se deve ao fato de estarem muito próximas umas das outras e terem um solo que é limpo ao seu redor, sem vegetação.
— As folhas vão crescendo para cima. As bananeiras competem por luz solar e crescem mais por isso — explica o produtor.
Na companhia de cães
Subir e descer os morros do litoral é uma tarefa árdua, mas fica mais fácil na companhia de dois parceiros inseparáveis de Fernando: a dupla de cães Luque e Titi.
Luque, maior e de pelagem preta, permanece sempre ao lado do tutor em seu caminho. Já Titi, uma vira-lata caramelo tradicional, acompanha Fernando e, de vez em quando, esconde-se no meio das bananeiras ou até da vegetação para brincar.
— Eles vão aonde eu vou. Nunca trabalho sozinho — garante.
O caminho até o consumidor
Depois que são colhidas, as bananas do Litoral Norte são vendidas principalmente para distribuidoras que encaminham o produto aos mercados. Há também uma pequena parcela que prefere a venda direta ao consumidor, além do início de uma cooperativa que pretende fortificar o setor na região.
E assim a banana do litoral segue o seu caminho: das mãos das famílias de toda uma região para as mãos dos consumidores.