
Conhecidos pontos turísticos do município de Torres, no Litoral Norte, o Parque da Guarita e o Caminho da Santinha apresentam perigos geológicos que demandam atenção a fim de evitar possíveis acidentes com visitantes.
Os riscos foram apontados por um estudo divulgado recentemente pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) e envolvem o tombamento de colunas rochosas e a queda livre de blocos rochosos.
De acordo com o pesquisador em geociências Anselmo Pedrazzi, o relatório faz parte do projeto Avaliações Geotécnicas em Atrativos Geoturísticos, que foi criado pelo SBG em 2022, após o desabamento de rochas no Lago de Furnas, em Capitólio, Minas Gerais, que vitimou 10 pessoas.
Dentro da iniciativa, a equipe faz um mapeamento dos perigos de cada ponto turístico, que costuma ser solicitado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por associações envolvidas com o turismo ou pelos gestores locais.
O mapeamento de Torres foi realizado de 29 de maio a 2 de junho de 2023 e o relatório foi produzido nos meses seguintes, sendo concluído em setembro. A publicação, contudo, só ocorreu em 2024. Pedrazzi afirma que foi a prefeitura do município que solicitou à equipe uma avaliação do Parque da Guarita e do Caminho da Santinha, que fica no calçadão da Praia da Cal.
O especialista explica que, através do uso de drones, a equipe realizou o mapeamento de imagens que gerou um modelo digital de elevação, que é como se fosse um scanner em 3D do local:
— Com esse material, fizemos uma modelagem de computador que, baseada na amplitude, na altura, na inclinação e no tipo de material das encostas, se é solo ou rocha, nos gerou as manchas de áreas de atingimento e de áreas de deflagração de processo. Com isso, caracterizamos essas áreas para poder estipular o grau de perigo (muito alto, alto, médio e baixo) desses locais. É isso que consta nos mapas que compõem o relatório.
No Parque da Guarita, toda a área foi mapeada, mas foram detalhados sete locais específicos de maior relevância: Torre Sul, Torre da Guarita (Sentinela), Bico do Luiz, Furna do Diamante, Saltinho, Portão e Trilha Verde. Conforme Pedrazzi, os perigos geológicos encontrados em Torres são resultado de diversos fatores que, quando somados, acabam exigindo atenção.
O relatório aponta que, entre os processos que podem ocorrer nos locais analisados, estão tombamento de colunas rochosas, queda livre e rolamento de blocos rochosos, desplacamento de lascas de rocha, deslizamento planar e rastejo. Segundo o pesquisador, as áreas críticas foram classificadas com grau de perigo "alto", mas a Torre da Guarita e a Torre do Farol receberam grau de perigo "muito alto". As áreas com demais classificações de risco ainda não foram divulgadas pelos pesquisadores.
Recomendações para reduzir riscos
Além das análises, o estudo traz recomendações para reduzir os riscos aos turistas. Uma delas se refere à remoção de um resquício de laje de concreto armado deteriorada na face leste da Torre da Guarita, que apresenta risco iminente de colapso.
Pedrazzi afirma, contudo, que a solução dos problemas nos locais mapeados precisa passar por estudos de engenharia, a fim de saber quais intervenções estruturais ou não estruturais se pode fazer naquelas áreas. O especialista reforça que um dos objetivos do SGB ao oferecer sugestões é que as administrações públicas se preparem, criando um plano de contingência para caso ocorra um acidente.
— É para que elas já saibam lidar com aquela situação, já saibam o que fazer e já tenham tudo planejado para atender a possível vítima, fazendo o atendimento de primeiros socorros, o transporte, já saibam para qual hospital levar. E também para reforçar as regras de uso e permanência dos locais. Tem local em que talvez seja interessante, por exemplo, não permitir que as pessoas fiquem lá de maneira prolongada — comenta.
Na visão de Pedrazzi, uma das medidas mais importantes é, sobretudo, informar as pessoas que frequentam esses locais que eles não são livres de perigos e que é necessário que estejam atentas.
O que diz a prefeitura
Em nota, a prefeitura de Torres informa que as secretarias municipais de Turismo e de Meio Ambiente e Urbanismo, bem como a equipe técnica do Geoparque Mundial da Unesco Caminho dos Cânions do Sul, estão cientes do estudo do SGB e que o documento foi apresentado a elas no final de 2024. De acordo com a gestão municipal, o relatório já norteia os pareceres técnicos relativos ao Parque da Guarita.
O texto da prefeitura também destaca que a equipe de geologia do município realiza ações de monitoramento periódicas no local, com foco nas áreas de risco, e que a sinalização de toda a área está em fase de renovação e ampliação. Em 19 de janeiro, quando a reportagem de Zero Hora esteve no Parque da Guarita, foi possível observar placas mais antigas indicando perigo.
O município garantiu que também há orientação aos turistas que visitam o local, além do desenvolvimento de "ações de educação ambiental com trilhas guiadas por todo o parque, no qual o tema é abordado".
"Paralelo a estas ações, solicitaremos a orientação ao Serviço Geológico do Brasil quanto à metodologia para atender aos apontamentos do relatório, especialmente em relação à retirada da laje de concreto de forma segura e sem dano ambiental e aumento dos riscos geológicos", finaliza a nota.