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Considerada uma ferramenta fundamental para o processo de autoconhecimento em todas as fases da vida, a terapia desempenha um papel ainda mais importante na terceira idade. Isso porque o atendimento regular com um psicólogo pode auxiliar os idosos a lidarem melhor com as mudanças que acompanham o envelhecimento — como a aposentadoria, a viuvez e o relacionamento com as novas gerações.
Para Rosangela da Rocha, 64 anos, esses são os três principais temas com os quais a terapia tem lhe ajudado nos últimos anos. A nutricionista aposentada consulta semanalmente com a mesma psicóloga há mais de duas décadas e garante que o processo foi essencial em todas as suas fases, fazendo com que passasse a ver a vida de outra maneira em diversos momentos.
— Acho que a terapia é fundamental para a gente se entender — resume.
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Rosangela conta que parou de trabalhar em 2018, quando o neto nasceu, porque queria ajudar a filha a cuidar da criança nos primeiros meses de vida. Na terapia, entendeu que era importante priorizar essa vontade, sem sofrer com a decisão. Já no ano seguinte, incentivada pela psicóloga, realizou um sonho de juventude e comprou um trailer para vender cachorro-quente:
— Foi muito bom esse tempo, mas eu comecei a ver que eu não queria mais. E isso que é o gostoso na terapia: tu se entender, entender que tu não precisa insistir nas coisas. Entender o que tu quer agora e que no pós-aposentadoria tem várias coisas para fazer.
De acordo com a aposentada, a terapia também foi essencial para lidar com a perda repentina do marido, em decorrência de um mal-súbido, aos 55 anos.
— Nós estávamos já planejando a aposentadoria, o que nós iríamos fazer, e ele faleceu de uma hora para outra. Eu fiquei sem chão, ficou um vazio dentro de mim. E a psicóloga me ajudou muito. Foi o pior momento de decisões que eu tive que tomar e a terapia estava sempre presente. Organizou minha cabeça, foi um momento crucial — relata.
Ajuda para lidar com a ansiedade
A terapia é vista como uma grande aliada no tratamento do principal problema de saúde mental que atinge a população idosa: a ansiedade. Conforme Michele Klotz da Rosa, psicóloga clínica do Núcleo Longevidade do Centro de Estudos da Família e do Indivíduo de Porto Alegre (Cefi) e mestre em Gerontologia, a condição acaba sendo duas vezes mais prevalente do que as demências e quatro vezes mais presente do que a depressão nesse público.
A especialista ressalta que as pessoas têm dificuldade de perceber que estão ansiosas e que ainda existe um grande estigma sobre a busca por serviços de saúde mental por parte da população idosa, já que historicamente muitos acreditam que atendimento psicológico e psiquiátrico "é para loucos”.
— Muitas vezes, a pessoa idosa acha que está com uma condição de saúde física, quando na verdade é um problema de saúde mental que está somatizado no corpo. Por exemplo, questões de insônia e de tensão muscular às vezes estão ligadas a quadros de ansiedade — comenta.
O acompanhamento psicológico para essa faixa etária vem muito para tentar trabalhar a questão das perdas e organizar esses lutos, que às vezes envolvem alguma incapacidade
VALÉRIA GONZATTI
Psicóloga
Autoconhecimento
A psicóloga Valéria Gonzatti, docente do mestrado profissional em Psicologia e vice-líder do Grupo de Pesquisa em Envelhecimento e Cidadania (GPEC) da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), enfatiza que a psicoterapia é um facilitador do processo de autoconhecimento. Por isso, pode auxiliar os idosos em situações como luto, abandono familiar e fragilidade de laços afetivos:
— Às vezes, o processo psicoterápico vai ser buscado para tentar entender tudo isso. Por exemplo, a morte do cônjuge, a nova conjuntura de trabalho e a funcionalidade do corpo, já que as atividades funcionais e laborais são diferentes. Então, a terapia vai abarcar essas questões de autoconhecimento pela questão também da representatividade social, da velhice, do envelhecer.
Dessa forma, Valéria destaca que a psicoterapia pode ser buscada em todas as fases da vida — principalmente ao considerar o aumento da expectativa de vida da população:
— O acompanhamento psicológico para essa faixa etária vem muito para tentar trabalhar a questão das perdas e organizar esses lutos, que às vezes envolvem alguma incapacidade. Já vemos muitos benefícios em relação a isso, para se autoconhecer nessa outra fase e reajustar as vontades, perspectivas e expectativas.
Outros benefícios
A escuta qualificada, o fato de “ter alguém para desabafar” e o acolhimento livre de julgamento são outros benefícios citados pelas especialistas. Michele acrescenta, ainda, que a terapia pode ajudar o idoso a fazer as pazes com o passado e parar de remoer e sofrer por situações vividas anteriormente, bem como a lidar com as adaptações necessárias durante a velhice.
— É importante vencer o autoetarismo, porque muitas vezes a pessoa idosa tem aquela crença de que já está velha demais para mudar. E sabemos que isso é um mito, a pessoa em qualquer idade pode mudar. E vemos mudanças belíssimas acontecendo no processo terapêutico — salienta a psicóloga do Cefi.
Na visão das especialistas, destacar esses benefícios pode ser um caminho interessante para incentivar os idosos a iniciarem o acompanhamento psicológico, independentemente da idade. Michele ressalta, contudo, que é necessário preservar a autonomia daquele indivíduo para pensar e decidir sobre sua própria vida.