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A quarta onda de calor do ano no Rio Grande do Sul — a quinta no Brasil — está prestes a se iniciar, voltando a trazer temperaturas próximas aos 40ºC. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) estima que o evento meteorológico deve começar entre o fim dessa semana e o início da próxima, sem especificar uma data. Já a Climatempo propõe que o fenômeno deve se estender de sexta-feira (28) até a quarta-feira (5).
De acordo com Guilherme Borges, meteorologista da Climatempo, a nova onda de calor será motivada pela sobreposição de dois sistemas de alta pressão na atmosfera: um que está atuando sobre o continente, e outro sobre o oceano, que se aproxima em direção à América do Sul.
Sistema de alta pressão em médios níveis
Sobre o continente, próximo ao Rio Grande do Sul, norte da Argentina e parte do Paraguai, se formou um sistema de alta pressão em médios níveis da atmosfera. O que isso significa: há uma extensa área localizada a cerca de 5 mil km acima da superfície, que provoca a circulação de ventos no sentido anti-horário e que está intensificando a movimentação do ar de cima pra baixo.
Associado à incidência solar, ele faz com que a massa de ar quente fique concentrada próxima à superfície e dificulta a entrada de frentes mais frias. A condição impede que nuvens carregadas se formem com facilidade e favorece a prevalência de céu aberto.
— Isso potencializa muito a subida das temperaturas. Vimos nos últimos episódios (de onda de calor) essa configuração, desse sistema se formando. Esse sistema se estabelece, potencializa essa circulação do ar de cima pra baixo, deixa uma massa quente presente e, consequentemente, as temperaturas ficam acima da média — diz Guilherme Borges.
A formação desse sistema sobre parte da América do Sul formou um bloqueio atmosférico.
— Esse ar está impedindo que as massas com temperatura mais baixa cheguem na nossa região. (As frentes frias) se aproximam do Uruguai, passam pela região Sul, mas facilmente se deslocam para o oceano. Então, fica persistindo esse céu com pouca nebulosidade — explica Eliton Lima de Figueiredo, meteorologista do Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Os sistemas de alta e baixa pressão são diretamente influenciados pela altitude das regiões e pela interação das diferentes temperaturas na atmosfera e das temperaturas nas águas dos oceanos.
O que é o ASAS?
Há um outro sistema de alta pressão atmosférica atuando próximo à América do Sul, mas sobre o oceano. Denominado de Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS), ele é considerado um sistema semipermanente, que se movimenta no sentido Leste-Oeste na atmosfera.
Conforme Guilherme Borges, durante o verão no Hemisfério Sul esse sistema costuma ficar mais próximo da África. No entanto, por um aumento na temperatura do oceano Atlântico, ele está mais próximo da América do Sul.
— Esse sistema se posiciona mais frequentemente no Brasil durante metade do outono e o inverno. O que a gente está vendo é uma movimentação dele bem precoce, justamente por essa variabilidade da temperatura dos oceanos impactando na atmosfera — pontua o meteorologista.
Por ser uma área de alta pressão, ele também promove a circulação de ventos no sentido anti-horário, dificulta o deslocamento das frentes frias e inibe a formação de nuvens. Dessa forma, diante da sobreposição prevista, a alta pressão que está sobre parte da Argentina e da região Sul do Brasil deve reforçar o ASAS.
— Há uma sequência de sistemas meteorológicos se sobrepondo, potencializando essa condição de temperatura alta no Rio Grande do Sul — reforça o meteorologista.
Incidência solar
Outro fator que está diretamente ligado à elevação nos índices dos termômetros é o sol. Estamos no verão, período em que a emissão de raios solares é mais alta e os períodos de céu claro são mais longos.
Por conta da baixa nebulosidade e da contenção de entrada de frentes frias, a incidência solar consegue penetrar e atuar com mais facilidade sobre o território gaúcho.
— A insolação durante o verão é muito alta. Então, se não tiver nuvens no céu, o aquecimento diurno é muito alto. Não é fora do normal ter temperatura alta na região Noroeste, Oeste, Central, mas está persistindo porque não está tendo a entrada de massas de ar frio — explica Eliton Lima de Figueiredo, meteorologista do Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas da UFPel.
*Produção: Carolina Dill
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