O educador social e palestrante gaúcho Rodrigo Sabiah, 39 anos, foi o único brasileiro selecionado para uma bolsa de estudos na África do Sul que irá reunir egressos do sistema prisional de diversos países, em março. A iniciativa terá uma série de debates entre pessoas que viveram a experiência da prisão e hoje lideram trabalhos sociais em comunidades periféricas e auxiliam outros ex-detentos a buscar vaga no mercado de trabalho.
Criado na Vila Alto Erechim, na zona sul de Porto Alegre, Rodrigo deixou a prisão em 2012 e passou a trabalhar como reciclador. Chegou a puxar carrinho de reciclagem pelas vias da Capital. Depois, tornou-se dono de uma usina ao lado do irmão, Felipe, e passou a contratar funcionários, dando prioridade a egressos do sistema penitenciário.
Em 2018, Rodrigo foi convidado para dar aulas com a Agência Besouro e abraçou a oportunidade. Desde então, passou por diversas instituições ofertando palestras, contando a sua história de vida e dando aulas de empreendedorismo social para jovens da periferia de Porto Alegre, Manaus, São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.
Hoje, o educador toca o projeto Reciclando Vidas, que auxilia famílias com cestas básicas e oferece qualificação a ex-detentos para que consigam emprego. Foram essas experiências de vida que qualificaram Rodrigo para a bolsa ofertada pela organização não-governamental Incarceration Nations Network (INN).
— Logo que a gente sai do sistema penitenciário, a gente acaba carregando esse rótulo, seja através de uma tornozeleira, seja quando vamos pedir um emprego e nos pedem a ficha corrida. A gente carrega esse estigma, essa desconfiança no dia a dia. As portas se fecham, as pessoas têm preconceito, não dão oportunidade para quem passou pelo sistema penitenciário — relata ele, que é fã declarado de Nelson Mandela, líder da luta pela igualdade racial e que se tornou presidente sul-africano após 27 anos de prisão.
O trabalho de Rodrigo se divide basicamente em duas frentes: a educação de jovens de periferia e a reinserção de egressos da prisão. No caso dos jovens, ele defende a ampliação de políticas públicas nas comunidades, incluindo atividades de cultura e lazer, como forma de driblar o crime.
O educador afirma que muitos jovens são atraídos ou não conseguem deixar a ilegalidade pela falta de oportunidades e porque "não veem outro caminho".
— Eu fui ler um livro pela primeira vez quando estava dentro da cela no presídio. Não se fala sobre isso (na comunidade), eles não falam sobre faculdade. O assunto é a marca tal, a marca do jogador de futebol. Não que isso seja ruim, mas são padrões que eles (jovens) querem alcançar. Tem que trabalhar essas questões culturais para que a gente possa amanhã ou depois ver esses jovens com outra perspectiva, pessoas que querem alcançar um melhor padrão financeiro, mas também de educação e cultura.
Além de Rodrigo, participarão da bolsa de estudos Global Freedom Fellowship outros 16 egressos do sistema prisional de 10 países: África do Sul, Argentina, Colômbia, El Salvador, Estados Unidos, Holanda, Nigéria, Quênia, Reino Unido e República Tcheca. Os selecionados irão passar 13 dias na Cidade do Cabo e em Joanesburgo, onde também irão visitar os locais em que Mandela esteve preso.