
Assim que os primeiros pacientes suspeitos ou confirmados para a covid-19 chegarem ao Hospital Geral, em Caxias do Sul, eles serão questionados se aceitam ou não participar de um estudo que vai avaliar a eficácia e a segurança do uso da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus. É que o hospital entrou para o rol de instituições de saúde de todo o país que desenvolverão a pesquisa capitaneada pelo Hospital Israelita Albert Einstein, HCor, Hospital Sírio Libanês, Hospital Moinhos de Vento e Rede Brasileira de Pesquisa em Terapia Intensiva (BRICNet), em parceria com o Ministério da Saúde.
A iniciativa terá a participação de 40 a 60 hospitais que realizarão a pesquisa em três frentes: em pacientes que necessitem de internação hospitalar nas formas leve, moderada e grave da doença. Os resultados deverão estar disponíveis em 60 a 90 dias e são importantes para direcionar tratamento aos pacientes com covid-19 no Brasil.
Em Caxias, dois dos seis hospitais já ministram a hidroxicloroquina em pacientes com quadros graves de infecção confirmada ou suspeita de terem sido causadas pelo novo coronavírus. Mas todos os demais dizem que agirão da mesma forma e só não o fizeram porque ainda não tiveram pacientes nessa situação (veja quadro). De forma geral, os hospitais locais fazem coro ao que alegam especialistas e autoridades da área da saúde do país quando referem que não há estudos finalizados que comprovem a efetividade do uso tanto da cloroquina quanto da hidroxicloroquina nos casos de covid-19.
— Nós não temos ainda estudos suficientes que demonstrem o benefício da hidroxicloroquina, da segurança de seu uso, em todos os pacientes que internam e que tem confirmação de covid. Há uma divergência muito grande entre os cientistas à sua liberação e ao seu uso para todos os casos. A nossa instituição se reuniu com os membros do comitê de bioética (do hospital) e definiu que usaremos hidroxicloroquina para pacientes graves em regime de UTI — ponderou a infectologista Viviane Buffon, coordenadora médica do Controle de Infecção do Hospital Geral.
A avaliação do comitê foi de prescrição de hidroxicloroquina nos pacientes graves independente de fazerem ou não parte do estudo. E no caso da pesquisa, o HG solicitou e recebeu autorização para incluir pacientes hospitalizados ao Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade de Caxias do Sul (UCS).
A infectologista diz que o HG é cauteloso em relação a tratamentos que não sejam definidos cientificamente para uso nesses casos:
— Como a situação é muito recente, o hospital está se inserindo nesses estudos clínicos multicêntricos para que possamos ter um respaldo e uma segurança maior.
Também será avaliado o uso da medicação quando associada à azitromicina (antibiótico) para verificar se terá efeito benéfico a ponto de melhorar problemas respiratórios causados pelo novo vírus.
— Esses pacientes (do estudo) serão acompanhados durante toda a sua internação, serão avaliados com exames clínicos, laboratoriais e eletrocardiográficos para ver a eficácia dos medicamentos e assim a segurança — explica Emerson Boschi, coordenador médico da UTI adulto do HG.
Nas situações em que o pacientes estiverem impossibilitados de responder, um representante legal será consultado. Para os que aceitarem, a medicação será ministrada quando o paciente for internado, com a dosagem de um comprimido (400mg) de 12 em 12 horas. A pesquisa tem duração de alguns meses, mas Boschi espera ter já respostas parciais em até dois meses que apontem se a hidroxicloroquina é eficaz, se reduz a mortalidade, o tempo de internação e as complicações do quadro respiratório causadas pelo novo coronavírus.
O estudo deve abranger de 400 a 600 pacientes em cada uma das apresentações da doença (leve, moderada e grave) no país. Com isso, cada hospital participante vai contribuir para alcançar essas marcas sem número determinado para cada instituição. A medicação chegou ao HG na Sexta-Feira Santa. Como, desde então, não ingressaram pacientes com suspeita da doença na UTI, a pesquisa ainda não iniciou.
Ainda segundo Boschi, talvez seja desenvolvido estudo para avaliar uso também em pacientes que não necessitem de internação.
Tacchini também integra pesquisa
O Hospital Tacchini, de Bento Gonçalves, também integra o grupo de pesquisa do uso da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes. De acordo com a diretora técnica do hospital, Roberta Pozza, a seleção dos pacientes ocorre de acordo com a procura dos serviços de saúde por pessoas com síndrome gripal que precisam de internação.
CLOROQUINA X HIDROXICLOROQUINA:
:: Difosfato de cloroquina - mais antiga e empregada no tratamento da malária.
:: Hidroxicloroquina - mais moderna usada principalmente em doenças reumatológicas, mas pode ser usada para malária, e tem menos efeitos colaterais que o difosfato de cloroquina.
TOXICIDADE:
:: O difosfato de cloroquina é mais tóxico do que a hidroxicloroquina. Pode desencadear arritmias cardíacas (coração bater de forma irregular) e levar à morte.
:: Além das arritmias, o acúmulo do medicamento leva a depósito na retina. Leva tempo, mas pode causar problemas na visão.
:: A curto prazo, pode causar alterações na glicose, causando hipoglicemia.
Fonte: Chefe do serviço de infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Eduardo Sprinz
Medicação é cercada de dúvidas
Nos casos do novo coronavírus, percebe-se que a hidroxicloroquina tem se demonstrado mais potente do que a cloroquina (difosfato), disse o chefe do Serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Eduardo Sprinz, no programa Timeline da Rádio Gaúcha na última semana.
— Com relação aos estudos clínicos, eles são controversos e de baixa qualidade até o momento. A gente luta para usar a hidroxicloroquina, porque se funcionar a que pode funcionar é ela. Mas não sabemos qual o momento de sua prescrição, se é no início de sua apresentação ou se é em quadros mais tardios ou graves. A gente não sabe exatamente qual a dose e por quanto tempo. Além disso, sozinha certamente ela não será suficiente. Ela precisa de outros elementos — declarou o especialista durante a entrevista.
Para o infectologista, a ciência vai dar as respostas:
— Os estudos estão em andamento. Mas não temos ainda respostas. Para isso, precisamos de tempo. Como o tempo é exíguo, vamos batalhar para usar hidroxicloroquina em quase todos os que pudermos.
O médico lembrou que o uso das medicações não é novidade e que não se pode "esquecer da nossa história." Em 2002 e 2003, durante a primeira epidemia de coronavírus, a chamada Sars, se estudou diversos medicamentos, inclusive, cloroquina e hidroxicloroquina, e ambos funcionaram, também em laboratório.
Outra alternativa muito falada durante a pandemia atual é a transfusão de plasma. Sprinz explicou que é antigo usar plasma de pessoas convalescentes, mas que o problema também é mostrar se vai ou não funcionar. É preciso separar o sangue do plasma e atestar se aquela pessoa que teve a infecção pelo novo coronavírus tem anticorpos suficientes que possam neutralizar na outra pessoa (doente) o vírus. Além disso, é preciso haver compatibilidade sanguínea.
— Mais uma coisa que a evidência clínica é pífia e também pretendemos estudar. É uma série de processos que podem ou não dar certo e é muito mais oneroso — ponderou o infectologista.
Leia também
Contra pandemia, mais de 40 estabelecimentos são fiscalizados pela Vigilância Sanitária em Caxias do Sul
Confira como ficam horários do Shopping Bourbon San Pellegrino após retomada
Shopping Iguatemi Caxias reabre nesta segunda
Pelo mundo: saiba como está a rotina fora do Brasil com a pandemia de coronavírus #12