*Com agências

A Argentina está sobressaltada. Vive a expectativa para saber, enfim, como a presidente Cristina Kirchner reagirá à cirurgia de duas horas a que se submeteu no início da tarde de terça-feira para remover um hematoma instalado entre o crânio e a membrana que o protege. Não é apenas a saúde da presidente, porém, que provoca apreensão: é a própria estabilidade institucional do país, que será governado interinamente pelo vice-presidente Amado Boudou, ex-aliado de primeira hora da mandatária e hoje alvo de suspeitas de enriquecimento ilícito.
O primeiro sinal de distensão nos últimos três dias ocorreu precisamente às 13h20min de ontem. Para vibração do grupo de simpatizantes que se aglomerava na entrada da Clínica Favaloro empunhando cartazes com os dizeres "Força, Cristina", "Melhore logo" e "Você é insubstituível", o porta-voz da presidência, Alfredo Scoccimaro abriu a porta da instituição, na Avenida Belgrano, a 400 metros do Congresso, e anunciou: a cirurgia fora "satisfatória".
De acordo com o boletim médico, houve a "extração de um hematoma subdural direito na presidente" e "foram descartados os riscos cardiovasculares por meio de diferentes exames complementares".
- Ela está animada e mandou saudações a todos. Agradeceu à equipe médica e a todos que rezaram por ela. Está de muito bom humor - acrescentou o porta-voz.
Cristina está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da clínica. Acompanham-na os filhos, Máximo e Florencia, e a mãe. Na Casa Rosada, está Boudou, que abreviou uma viagem ao Brasil e cancelou a extensão até a França, chegando a Buenos Aires ainda na noite de sábado.
Desde que começaram a aparecer acusações de mau uso do dinheiro público, o vice-presidente se tornou um corpo estranho no governo. A presidente, que chegou a tê-lo como eventual sucessor, deixa clara sua decepção. A interinidade, no entanto, impunha-se, e as cogitações a respeito de alguma alternativa se viram frustradas. Pelo artigo 88 da Constituição, em caso de afastamento presidencial, o vice assume o cargo. Já na segunda-feira, Cristina assinou a transmissão dos poderes executivos.
Efeitos nas eleições são incógnita
Será sob a presidência de Amado Boudou que, no próximo dia 27, haverá eleições para renovar metade da Câmara de Deputados e um terço do Senado. A tendência é de que o governo sofra uma derrota já vaticinada pelas primárias realizadas em agosto.
Até este fim de semana, Cristina estava empenhada na campanha. Tentava jogar seu peso político na disputa para reverter a situação. As pesquisas, no entanto, mostravam que o quadro é ainda mais negativo para o governo. E a situação tende a se agravar, porque é grande a impopularidade de Boudou.
- As pesquisas mostram que a derrota deve ser ainda maior que nas primárias. O quadro é complexo. Houve quem especulasse que a presidente manobra para tirar proveito da comoção popular provocada pela doença. Foi o que ocorreu quando ela enviuvou de Néstor Kirchner. Mas não creio. Seria uma trama impossível de ocultar - disse o analista político Carlos Malamud, que considera "incertos" os efeitos eleitorais do drama de Cristina.
Já Joaquín Morales Solá resume:
- Cristina tem dois problemas: a saúde e Boudou, uma nulidade política.
E AGORA, ARGENTINA?
O que ocorreu com Cristina?
Teve uma "coleção subdural crônica", isto é, um hematoma resultante da acumulação de sangue entre o cérebro e sua membrana protetora, a dura-máter. A lesão é reflexo de queda sofrida pela presidente em 12 de agosto. Na ocasião, os sintomas do traumatismo craniano não foram percebidos, nem mesmo em uma tomografia na ocasião. A identificação do hematoma ocorreu quando, no sábado, Cristina foi hospitalizada com arritmia cardíaca e cefaleia. Após ficar 12 horas hospitalizada e ser orientada a se afastar da presidência por um mês, ela sentiu, no domingo, um formigamento no braço esquerdo e a perda de força nesse membro (sintoma de compressão cerebral) e voltou a ser internada. Foi aí que os médicos decidiram pela cirurgia.
Como foi o traumatismo?
Ocorreu no dia seguinte às primárias cujos resultados mostraram baixa popularidade do governo - as eleições legislativas ocorrem no dia 27. Cristina retornava de Río Gallegos, no Tango 1, a aeronave presidencial. Nunca o governo mencionou qualquer queda. Os médicos dizem que é natural haver sequelas dois meses depois.
Como foi a cirurgia?
Foram feitas minúsculas perfurações no crânio, por onde se drenaram sangue e outros líquidos.
E o pós-operatório?
A cirurgia foi tida como bem-sucedida. Há, porém, um prazo básico de 24 horas em que serão retirados restos de sangue. O repouso será de 72 horas. Devem ser evitados esforços físicos no período de entre sete e 10 dias, quando são retirados os pontos. A presidente pode vir a ter enjoos e dificuldade de concentração. Há casos raros em que se constatam danos cerebrais.
Quem é o vice?
Boudou responde a acusações de corrupção e enriquecimento ilícito. Teria feito negociações incompatíveis com o cargo no "Caso Ciccone", que envolveu a gráfica de mesmo nome. A empresa teria sido salva da falência com aporte financeiro de uma empresa ligada a Boudou quando ele era ministro da Economia. Logo após sair do vermelho, a Ciccone conseguiu um contrato com o governo para imprimir notas de cem pesos.