
O que o Instituto de Educação Vida e Saúde (Isev) executou de serviços nos 21 meses em que administrou o Hospital Bom Jesus, de Taquara, entre 2016 e 2017, ainda é um mistério para autoridades. A escassez de prestação de contas e as suspeitas de que valores que deveriam ser usados para manter a casa de saúde tenham sido desviados para benefício de terceiros fizeram a Polícia Federal desencadear a Operação Tomentella, nesta terça-feira (31).
O trabalho é em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU). A principal suspeita é a de movimentação de valores a partir da contratação de empresas cujos serviços não se justificam nem estavam previstos no contrato do Isev com a prefeitura, as chamadas "consultorias".
Apenas em cinco meses de contabilidade, no ano de 2017, o Isev gastou R$ 520 mil com consultorias diversas. As rastrear esses negócios, a PF descobriu que uma das empresas contratadas, por exemplo, tinha como responsável um gestor público que atuava, à época, na Secretaria Estadual da Saúde — ocupando, justamente, cargo em comissão no setor que cuida desse tipo de contratação pelas prefeituras.
Outro investigado, que sofreu buscas em casa nesta terça, é o ex-prefeito de Taquara Tito Lívio Jaeger Filho (Titinho).
A investigação da Operação Tomentella foi comandada pelo delegado Eduardo Brun Souza, da Delegacia de Repressão a Corrupção e Crimes Financeiros. O superintendente da Controladoria Regional da União no Estado, Carlos Alberto Rambo, destacou a relevância do trabalho:
— Essas operações são de suma importância para o cidadão, pois são recursos necessários para que o Estado consiga prestar um bom atendimento na saúde.
Rambo explicou ainda que a análise de auditores da CGU em documentos da organização social mostrou que havia prestação de contas genérica, contrária ao que exige a lei.
— Encontramos irregularidades e agora, com essa ação, buscamos mais subsídios para concluir esses relatórios técnicos — explicou o superintendente.
O Isev atuou no Hospital Bom Jesus até dezembro de 2017, quando foi afastado da gestão por decisão da Justiça Federal. Levantamento feito no ano passado pelo Grupo de Investigação (GDI) da RBS indicou que a organização social tinha 15 contratos sob suspeita no Estado e em Santa Catarina.
Ao cumprir 10 mandados de busca e apreensão nesta terça, em Porto Alegre, Taquara, Pelotas e Santa Vitória do Palmar, policiais federais recolheram documentos, telefones celulares e computadores. Em Pelotas, um investigado foi preso em flagrante por posse de arma sem registro.
Contrapontos
O que diz Tito Lívio Jaeger Filho
"Desconheço qualquer investigação contra mim. Fui pego de surpresa com essa situação. No passado, a 4ª Câmara Criminal já havia analisado isso e arquivou, pois não havia nada me envolvendo."
O que diz Arima Pires, advogada do Isev
“O Isev, na realidade, não tem atividade desde 2020. Somente não foi extinto por existir créditos ou dívidas que impedem a baixa e extinção. Com relação a essa parte da investigação, da ação de hoje, não tive acesso, por isso, não posso me manifestar.”