
Há cerca de 15 anos, em uma palestra na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), o cientista político e economista norte-americano Albert Fishlow falava sobre a revolução que estava acontecendo no setor nos Estados Unidos. Fábricas não competitivas e "pesadas", como a metalúrgica, seriam "enviadas" para outros países, de onde então seriam importados os produtos. A indústria em solo norte-americana seria a de alta tecnologia.
Isso aconteceu não só com os Estados Unidos. Outros países também mandaram partes importantes das suas cadeias produtivas para outros locais, especialmente a Ásia.
Porém, os países asiáticos também levaram a tecnologia e profissionais que os ensinaram, por exemplo, a inovar como a Alemanha e os Estados Unidos. Além da saudável globalização, cresceu uma perigosa dependência. A pandemia a escancarou com a falta global de suprimentos - mais emblematicamente, de semicondutores e outros eletrônicos essenciais como matéria-prima - porque fábricas e portos da China foram fechados.
Aos poucos, países começaram a discutir a reindustrialização como medida de segurança para diminuir essa dependência, mesmo que sejam menos competitivos e produzam mais caro do que na Ásia: "melhor ter mais caro do que não ter", como a coluna tem ouvido bastante.
O que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está fazendo tem, sim, um pouco disso, mas vai bem além para que todos se submetam aos seus interesses. Seu Dia da Libertação, quando anunciou as tarifas, marcou, segundo ele, o renascimento da indústria norte-americana. Os mais críticos falam em "desglobalização", com um tom de "nós nos bastamos".
A Casa Branca justifica as medidas para reverter o "esvaziamento da base industrial" e o prejuízo gerado disso nas "cadeias de suprimentos críticas", sem falar na indústria de defesa, que Trump diz estar "dependente de adversários estrangeiros", o que considera inadmissível.
"Em 2023, a produção industrial dos EUA como parcela da produção industrial global foi de 17,4%, abaixo dos 28,4% em 2001. (...) De 1997 a 2024, os EUA perderam cerca de 5 milhões de empregos na indústria e experimentaram uma das maiores quedas de empregos na indústria da história.", são os dados em destaque no comunicado da Casa Branca.
E justifica as taxações: "Essas tarifas buscam abordar as injustiças do comércio global, repatriar a indústria e impulsionar o crescimento econômico do povo americano."
“Made in America não é apenas um slogan — é uma prioridade econômica e de segurança nacional desta Administração. A agenda de comércio recíproco do Presidente significa empregos americanos mais bem pagos, produzindo belos carros, eletrodomésticos e outros bens feitos nos Estados Unidos.", aqui está posto e quase pintado de amarelo neon o que Trump quer das empresas: que produzam nos Estados Unidos. É o que vai acontecer se indicadores econômicos, como inflação e queda de PIB, não fizerem os Estados Unidos recuarem e se os outros países, especialmente aqui da União Europeia, não promoverem rearranjos nos acordos econômicos a ponto de garantirem espaço nesta nova ordem comercial do mundo. Aqui na Alemanha, os jornais colocam nas manchetes: "Trump declara guerra comercial ao mundo", "O fim do livre comércio como o mundo conhecia" e "China corteja Japão e Coreia do Sul".
Algumas das taxas aplicadas pelos EUA:
- China 34%
- Europa 20%
- Brasil 10%
* A coluna viajou a Hannover a convite da Fiergs.
Leia o que já foi publicado sobre a feira em Hannover.
Assista também ao programa Pílulas de Negócios, da coluna Acerto de Contas. Episódio desta semana: fios abandonados em postes, loja de chocolates fechada e outdoor de empregos
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Coluna Giane Guerra (giane.guerra@rdgaucha.com.br)
Com Guilherme Jacques (guilherme.jacques@rdgaucha.com.br) e Diogo Duarte (diogo.duarte@zerohora.com.br)
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