
Duas crianças, na faixa dos 10 anos de idade, se aproximam da coleção formada por ilustrações que revelam características minuciosas da estrutura dos aracnídeos. Paralisado pela cena, a poucos metros delas, o autor das artes as observa em silêncio, com os olhos marejados. Um dos maiores especialistas em aracnídeos no país, o biólogo Arno Antônio Lise, 83 anos, não precisou de palavras para descrever o momento que ocorreu em meio à exposição "Ilustração Científica: a arte na descrição de novas espécies", no Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), na manhã desta quinta-feira (14). Afinal, o seu legado estava se cumprindo pelos olhos dos pequenos: manter vivo o interesse pelo estudo das aranhas.
Arno foi professor na PUCRS ao longo de 57 anos, até se aposentar em 2016, quando recebeu o título de Professor Emérito pela instituição. Em mais de cinco décadas, formou centenas de biólogos, mestres e doutores que hoje ocupam espaços de destaque em museus pelo país. Seus ex-alunos, admiradores do trabalho do experiente biólogo, falam que já existem "bisnetos científicos" de Arno espalhados pelo Brasil. Além disso, ele é o responsável por criar ou organizar coleções de aracnídeos em Manaus, no Amazonas, e no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, no Pará. No Rio Grande do Sul, iniciou as coleções no museu da PUCRS e no Museu de Ciências Naturais da Fundação Zoobotânica. Também é considerado um especialista no desenho de aranhas, com seus trabalhos publicados em periódicos internacionais e agora a exposição permanente na PUCRS.
— A exposição era para durar três meses. Me aposentei há seis anos e, pelo que me consta, a exposição continua com meus desenhos — conta Arno, com orgulho.
Mas a paixão dele por pequenos animais vem da infância. Aos sete anos, quando ainda morava com os pais em Canela, na serra gaúcha, apaixonou-se pelas cores dos besouros. Por brincadeira, iniciou a coleção de insetos. E mesmo que ainda não tivesse conhecimento sobre o tema, anotava detalhes de cada achado e fazia com o miolo do caule de agave, uma planta suculenta, a superfície fofa onde eram colocados os exemplares com alfinete e identificação. Jamais poderia imaginar que, um dia, sua coleção feita na infância e adolescência, com cerca de 500 coleópteros - ordem de insetos da qual fazem parte os besouros - faria parte do acervo da PUCRS. Aliás, Arno nem pensava em biologia. Queria ser médico.
Para seguir estudando, veio morar em Porto Alegre. Primeiro, num quarto fornecido dentro do colégio Rosário, onde trabalhou na biblioteca por anos. Depois, passou a morar numa pensão da cidade. Nesta época, tentou o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e não foi aprovado. Além disso, precisava escolher um curso onde pudesse trabalhar meio período para se sustentar e o de Medicina lhe exigiria tempo integral de dedicação. Como já trabalhava na biblioteca central da PUCRS, enveredou para a biologia. Afinal, seguiria na grande área das Ciências Biológicas. Acabou aprovado. E hoje agradece ao caminho que o levou até o curso pelo qual se apaixonou já nas primeiras aulas.
— O destino me empurrou para a biologia. E a zoologia (ramo da biologia especializado no estudo científico dos animais)se tornou o meu campo favorito de estudo — comenta.
No último ano de universidade, Arno foi contratado para ser auxiliar da cadeira de zoologia na PUCRS. Era época de decidir no que trabalharia depois de formado porque ainda não existia o curso de mestrado. Certo dia, enquanto trabalhava na biblioteca, abriu aleatoriamente um dos volumes do Archivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, de 1929. Era um que tratava sobre aranhas.
— Aquelas aranhas eram tão bonitas, de dois ou três milímetros no máximo. O colorido dos desenhos era tão bonito, que eu disse "é com isso aqui que vou trabalhar". Já tinha largado os besouros e não podia mais coletar. No Brasil, só o Instituto Butantã trabalhava com aranhas. Foi quando decidi que criaria uma coleção de aracnídeos no Museu de Ciências da PUCRS a partir do material que já vinha coletando ao longo da graduação — recorda.
Como professor e pesquisador, percorreu o Brasil de Sul a Norte em busca de novas espécies de aranhas. No Amazonas, mergulhou na floresta e esteve em diferentes cidades. Impressionou-se ao perceber que o local, apesar da riqueza de diversidade, não tinha tantas, como imaginava.
— Como as matas são muito fechadas, as aranhas não conseguem se instalar porque não encontram campo, restinga ou cerrado. Elas não conseguem se alojar onde não têm espaço para construírem a teia — explica.
No final da década de 1970, a convite da Royal Geografic Society trabalhou com uma equipe de cientistas brasileiros e europeus no norte do Brasil durante três anos, entre idas e vindas. A mesma entidade fez questão de pagar todas as despesas do pesquisador gaúcho para ele participar de um encontro na Europa, onde pode falar sobre seus estudos na área de aracnídeos.
A larga experiência no tema levou Arno a se descobrir como um exímio desenhista das espécies estudadas por ele. Mais próximo do encerramento da carreira acadêmica, se dispôs, então, a reconstruir à mão algumas delas. As minúsculas, aquelas incapazes de serem divulgadas por meio de fotografias e imagens, ainda que em alta resolução. Com um olho no microscópio e outro na folha de papel, o biólogo conseguiu revelar características detalhadas dos aracnídeos, no que o próprio museu identifica como "verdadeiras obras de arte".
Mais do que criar ferramentas de trabalho, como o coletor artesanal usado até hoje por outros aracnólogos no trabalho de campo, Arno espalhou amor pela biologia e pela Ciência por onde passou. Isso foi possível acompanhar no retorno dele ao lugar onde atuou por mais de cinco décadas. Ao ingressar na PUCRS, acompanhado da reportagem, na manhã desta quinta-feira (14), um mar de pessoas veio ao encontro de Arno para abraçá-lo. Dos funcionários da limpeza aos pesquisadores em diferentes áreas de pesquisa, todos queriam ter alguns segundos ao lado do "doutor Aranha". Dois ex-alunos de Arno fizeram questão de acompanhá-lo na visita: o biólogo e assistente de museu Juliano Romanzini e o aracnólogo e professor Renato Teixeira.
— Ele é muito especial para todos nós. O maior biólogo que já conheci — confessou, emocionado, Juliano.
— O professor Arno foi o responsável por reerguer a aracnologia no Brasil, nos anos de 1970. Entre os anos de 1930 e 1970 não tivemos nenhum especialista no país nesta área — revelou Renato.
Hoje, o Museu de Ciências da PUCRS possui a quinta maior coleção de aranhas do Brasil, com mais de 100 mil catalogadas. A maior parte delas, recolhidas por Arno.
Curiosidades
- A aranha é um animal solitário e independente desde poucos dias após nascer.
- As aranhas não gostam de viver em comunidade.
- No Rio Grande do Sul há 13 espécies que merecem atenção por conta da peçonha. Principalmente, as espécies conhecidas popularmente como aranhas-armadeiras e aranhas-marrons. São aranhas que podem aparecer embaixo das cascas de árvores e também nas frestas das casas.
- A maioria das aranhas só se toleram no momento do acasalamento. Mas há espécies que se toleram em ambientes com abundância de alimentos.
- Para ocorrer o acasalamento, o macho passa por um ritual de conquista da fêmea. No caso de algumas integrantes da família Trechaleidae, uma espécie de aranha que vive próxima a riachos, por exemplo, o macho precisa entregar um presente à fêmea: ele embrulha um inseto na seda e a presenteia. Se ela aceitar, eles cruzam. Caso o contrário, ele pode ser morto pela fêmea.
- Ao contrário de outras espécies, a aranha fêmea faz um estojo de seda (ooteca) para cobrir os ovos, que algumas vezes são deixados no ambiente, sozinhos.
- A aranha-lobo (Lycosa erythrognatha) é uma das espécies que carrega os filhotes depois de nascidos. A fêmea gruda os ovos em fios que ficam no final do abdômen, já pensando em carregar os filhotes ainda não nascidos com ela. Quando começam a nascer, eles sobem e ficam nas costas da mãe.
- Uma única aranha pode colocar mais de 100 ovos. As caranguejeiras podem colocar até 400 ovos.
- Uma aranha pode durar de meses a anos. As caranguejeiras são mais longevas e podem durar até 15 anos. Há registro de uma espécie Australiana que chegou aos 47 anos).
- As aranhas, em sua maioria, se alimentam de pequenos insetos. Mas as caranguejeiras se alimentam de ratos, lagartos e de pequenos anfíbios.
- A maior parte das aranhas tem poucos milímetros de comprimento. Uma caranguejeira, porém, pode chegar a 30 centímetros de diâmetro.
FONTE: Arno Antônio Lise, aracnólogo e professor emérito da Pucrs, e Renato Teixeira, aracnólogo e professor da Escola de Ciências da Saúde e da Vida da PUCRS